sexta-feira, agosto 31, 2012

Rádios Privadas em Cabo Verde



Após a criação da RNCV, o regime de rádio única durou 6 anos, até que em 1992 regressaram as rádios privadas, que têm vindo a aumentar todos os anos. Nessa época a primeira rádio privada a surgir em Cabo Verde foi a Rádio Nova (estação de caris cristã), que surgiu em São Vicente. Em 1998, através de concurso, foi atribuído alvará de emissão a Rádio Comercial, a Rádio Praia-FM na cidade da Praia e a Rádio Morabeza em São Vicente. Actualmente temos um total de vinte e uma rádios públicas, privadas e comunitárias em Cabo Verde (RCV, RCV+, Praia FM, Crioula FM, Cidade FM, Mosteiros FM- na ilha do Fogo, Rádio Comercial, Rádio Educativa, Rádio Morabeza, Praia FM 2 _ rádio cultural, RDP- África, RfI – são retransmissores, Rádio comunitária Vila Nova Sintra – na ilha Brava, Rádio comunitária voz Ponta d’Agua, Rádio comunitária voz de Santa Cruz, Rádio comunitária Ribeira Brava – na ilha de São Nicolau, Rádio Nova, Rádio regional Ribeira Grande - Santo Antão, Rádio comunitária do Paul, Rádio comunitária do Maio e Rádio Comunitária Ribeireta – Calheta de São Miguel).

A Rádio Nova foi a primeira emissora privada a surgir em Cabo Verde, depois da criação da Rádio Nacional. Como já foi aqui referido é uma estação que está ligada a Igreja Católica, a sua sede fica na ilha de São Vicente.

A Rádio Comercial começou a emitir no final de 2009. Actualmente a estação emite para todas as ilhas, o seu director desde a fundação da rádio é o jornalista Carlos Gonçalves. Em relação a programação da rádio, ela é generalista. Tenta satisfazer todas as camadas da sociedade e os jovens não são excepção. A faixa etária dos trabalhadores de Rádio Comercial é muito jovem.

A Rádio e Novas Tecnologias Educativas ou simplesmente Rádio Educativa é uma rádio estatal voltada para a educação. A Rádio educativa foi criada pelo Ministério da Educação e Ensino Superior, em parceria com a UNESCO, entre 1976-1979 e em 2003 a Rádio Educativa passou a emitir a nível nacional. Essa rádio é temática, voltada para a educação e tem como objectivo formar e informar o seu público que era na altura da sua criação as pessoas do meio rural. Para além da formação, a programação da Rádio Educativa está virada para a educação, a informação e a cultura.

Em relação aos programas dedicados aos jovens, seguindo a sua linha de programação a rádio, segundo Pires (2007:38), “em 2001 iniciou um projecto de educação à distância de jovens e adultos com recurso a rádio”. O projecto pretendia capacitar para o trabalho, no sector do serviço, principalmente na área do turismo. Ainda nessa rádio encontramos outros programas voltados para os jovens como é o caso de HIV-SIDA- Prevenção é vida, Sábado em Família, Espaço da Poesia, Saúde verão, Especial CCCD, Hora do Brasil, Direito na bu kaza, Espaço UNICV, Nas Rotas do Ensino Superior. Em colaboração com a Rádio Deutsche Welle existe os seguintes programas para a faixa etária dos 13 aos 20 anos: As Jovens, HIV-SIDA, conhecimento Geral e Computadores e Internet. Também em conjunto com a DGAEA a Rádio Educativa promove alguns cursos a distancia para os jovens, como é o caso de: Educação na circulação Rodoviária, Ensino Baseado em Competências, Como Comunico, Viajando Pelas Ilhas, convivendo com os números, Informática Básica e Excel Iniciação. Em relação aos profissionais da Rádio Educativa, a faixa etária está a volta dos 35 anos.

A Rádio Voz de Ponta D’agua é uma rádio comunitária que surgiu no ano de 2003, sendo patrocinada pela empresa internacional City Habitat. Existe uma interacção entre a rádio e os habitantes da comunidade, aliás alguns dos programas da rádio são feitos por pessoas da comunidade. Por ser uma rádio comunitária a Rádio Vos de Ponta D’agua também investe em programas jovens, como é o caso do programa Novos Talentos, onde os jovens apresentam os seus talentos, propostas de literatura e música. Ainda dedicados aos jovens temos programas de animação cultural com a Rádio Praça e programas de informação desportiva. Os programas dessa rádio são feitos na sua maioria por jovens, que fazem parte da comunidade de Ponta D’agua.

Outra rádio comunitária é a Rádio Comunitária Voz di Santa Kruz, que iniciou as suas actividades a 03 de Agosto de 2006 e fica situada no concelho de Santa Cruz na cidade de Pedra Badejo. É uma rádio que pertence a ONG espanhola DIA. Aquando do seu surgimento a ideia era acompanhar de perto o trabalho juvenil na comunidade e dar mais opções aos jovens da região. Onda Jovem é um dos programas que a rádio dedica a camada jovem.

A Praia FM2 é uma rádio essencialmente cultural e tem como objectivo abordar a cultura de raiz de Cabo Verde, quer através da música como da poesia. É uma rádio que trabalha muito a base do voluntariado, ou seja, qualquer um que tenha um programa cultural e queira grava-lo, pode faze-lo nessa rádio. 

Por: Iranita Andrade

quinta-feira, agosto 23, 2012

As Rádios Jovens em Cabo Verde


 Indira - Animadora da RCV+

A RCV+ é uma rádio que “procura responder às expectativas da juventude numa programação diversificada, de qualidade, apostando em temas/assuntos interessantes e importantes que potenciem a participação dos jovens na vida pública do país”, segundo o jornalista Carlos Santos.

A RCV+ iniciou as suas emissões oficiais no dia 22 de Dezembro de 2007 na frequência de 95.5 MHz, na Cidade da Praia e a 16 de Maio de 2009 na ilha de São Vicente. Aquando da sua criação a RCV+ tinha projectado a sua emissão a nível nacional, mas até esta data a RCV+ é escutada apenas em algumas ilhas.

A RCV+ aposta numa programação diversificada, com conteúdos informativos, formativos, recreativos e muita música. Para além do espaço noticioso de 7 minutos, Info+ todos os programas da RCV+ (têm a duração de 5, 10 e 15 minutos) e são apresentados na língua cabo-verdiana, isso como forma de estar mais próximo do seu público-alvo (jovens). Na RCV+ trabalham actualmente 5 animadores e um jornalista que também coordena a emissora, o jornalista Benvindo Neves. Segundo os seus fundadores, de acordo com Carlos Santos a RCV+ tem um formato musical, mas também com outros conteúdos, como, informativos, debates, entrevistas, reportagens, jogos, passatempos, etc (tudo isso, claro em torno de questões que interessam aos jovens). Ao contrário das outras rádios consideradas jovens (pelos seus fundadores) existentes no país que passam essencialmente música. Segundo o director da RCV, Carlos Santos “A RCV+ está vinculada às obrigações de serviço público visadas tanto nos Estatutos da RTC, como na Lei da Rádio, devendo por isso:

"Contribuir para a informação do público e valorizar a cultura nacional, assegurando ao mesmo tempo a possibilidade de expressão e de confronto de diversas correntes de opinião. Assegurar a independência, o pluralismo, o rigor e a objectividade da informação perante o governo, a administração e os demais poderes públicos. Promover a defesa e divulgação dos valores da cultura cabo-verdiana, produzindo programas de educação ou formação de crianças, jovens (...), Contribuir para o esclarecimento, a formação e a participação cívica e política da população jovem;”

Efectivamente a RCV+ dentro da sua linha de programação voltada para os jovens, tenta cumprir o estatuto da Rádio e Televisão de Cabo Verde. Nesta linha a RCV+ informa o seu público-alvo, fazendo uma selecção das notícias que considera mais pertinente em relação a essa camada da sociedade, é uma rádio que faz sempre a divulgação de actividades culturais, com algum destaque aos cantores cabo-verdianos. É uma rádio que tem tentado passar informações formativas para os jovens. Em relação a política a rádio não da muita importância a este tipo de factos por ser algo que não interessa muito a camada juvenil. Exemplo disso é que quando vão apanhar as notícias na rede interna da RCV ou na Internet as noticias que falam sobre o governo ou sobre a economia não entram no info+.

A RCV+ dispõe de dois estúdios na cidade da Praia, e outro na ilha de São Vicente. Mas esta última referida não é bem aproveitada para fazer trabalhos da RCV+, pois existe falta de recursos humanos e esse estúdio muitas vezes é utilizado para a programação da Rádio de Cabo Verde. A RCV+ aposta claramente no crioulo, sendo que até a informação apresentada através do espaço noticioso info+ é transmitido em crioulo.

Dentro da programação da RCV+ encontramos os seguintes programas: Nôs Talento, que é um programa que dá voz aos jovens talentos da nossa terra, + Desporto que está dividida em duas partes: “Bola Branca” que é a retransmissão do jornal desportivo da Rádio Renascença, de Portugal. É emitida das 8:h às 8h:30mn, às 12h:30 e às 18h:30 e “Desporto Nacional” em 5 minutos são abordados os assuntos desportivos a nível nacional. É emitido duas vezes por dia, as segundas, quartas e sextas-feiras, sempre antes das edições de “Bola Branca” das 8h:30mn e das 18h:30mn.

 Informação artista é um programa que apresenta informações de artistas nacionais e internacionais, apontando os cd´s que são lançados e os espectáculos agendados no país e no exterior. Mas o programa não se cinge à música. Igualmente, lança um olhar sobre a literatura, a dança, as artes plásticas, etc. O programa é apresentado pela animadora Nany Vaz e vai ao ar às 9h:30 e às 15h:30 às segundas, quartas e sextas-feiras, Ciência e Técnica um programa de 5 minutos que traz as últimas informações científicas e técnicas no que diz respeito às descobertas, às inovações electrónicas e informáticas e ao mundo das telecomunicações. Vai para o ar de manhã e à tarde nas segundas, quartas e sextas-feiras.

Pipocas é um programa sobre informações do cinema, das estréias e das filmagens que estão a decorrer. É apresentado por Gil Noro às 9h com repetição as 15h na terça e quinta-feira, Bu beleza e bo saúde o programa aborda as questões ligadas à saúde e bem-estar dos cidadãos, com especial enfoque na camada jovem. Apresentam-se, também, dicas de beleza e conselhos práticos dados por especialistas em diferentes áreas transversais à saúde e ao mundo da moda/beleza. O programa tem a duração de 10 minutos e durante algum tempo foi apresentado pela estagiária Fabiana Lima.

 Artista da semana É um micro-programa que pode chegar aos dez minutos, tendo apenas a voz do artista e as suas músicas. Levando em conta um guião de perguntas, o artista convidado fala do seu trabalho discográfico, da sua carreira, dos seus projectos. Depois a gravação é editada, intercalando as respostas com músicas do artista em causa, Top+ vai ao ar todos os dias de segunda à sexta-feira. São duas edições diárias, uma às 11h e a segunda às 17h. Das 8 músicas cujos excertos são rodados antes, os ouvintes votam em seis que vão para o ar por ordem decrescente de preferência, dependendo do número de votos que cada um conseguir. Apresentado de manhã pela animadora Ariana Vaz, o programa é retomado à tarde, com Silvia Barros.

Retratos da vida um programa que apresenta pequenas entrevistas com jovens que, em primeira pessoa, contam as suas experiências nas mais diversas áreas. O programa inicialmente era dedicado exclusivamente aos jovens que fazem tratamento de desintoxicação na Granja de São Filipe, aos quais se pedia para contar as suas experiências de toxicodependentes de forma a dissuadir a juventude de experimentar as drogas. Entretanto, depois de algum tempo, alargou-se o âmbito do programa para diferentes sectores da sociedade com o objectivo de mostrar aquilo que de positivo a juventude tem para oferecer, quais sejam atitudes empreendedoras, a perseverança e a superação de dificuldades diversas, entre outros. É emitido às 12H00 e às 18H00 na segunda, quarta e sexta-feira e é apresentado pelo jornalista Benvindo Neves.

Parada de sucessos que reúne as músicas que durante toda a semana ocuparam os lugares de destaque no Top+ é apresentado aos domingos pela Paula Fortes, As rotas da internet que apresenta sugestões de sites, onde os ouvintes podem encontrar informações úteis, que o pode ajudar no seu dia-a-dia. Sai às segundas, quartas e sextas, às 18h:15mn, Som Y Tom Produzido e apresentado pelo DJ Ivan Lluv, tem a duração de uma hora e é dedicado ao dance music. Sai aos sábados a partir das 19H00.

Ritmos e melodias é um dos programas produzidos por pessoas que não fazem parte da RCV+. Tem a duração de uma hora e é dedicado à música jazz e ao blues. É emitido às 21H00 de segunda e sexta-feira. Apresentado por Abrão Rodrigues, Rise Programa dedicado ao reggae. Com a assinatura do Jorge Andrade, outro jovem que colabora com a RCV+ é emitido às terças e sábados a partir das 21H00.

Pro Metal Trata-se de mais um programa musical, voltado para o rock. Vai para o ar às quartas e domingos a partir das 21H00, Ritmos e poesias este é mais um programa com a assinatura do Abraão Rodrigues e voltado para o hip hop e o rap, transmitido também às 21H00 de quinta-feira e às 13H00 de domingo, Nostalgia um programa realizado e apresentado por Gil Noro, a partir das 22H00, faz recordar o melhor da música nostálgica e suave de outros tempos (Anos 70, 80 e 90 do século XX). Sai de domingo a quinta-feira, Disco+ Um programa com música para os que não dormem aos fins-de-semana às sextas e sábados, das 22H00 às 05 da manhã.

Conforto de um Abraço um programa romântico onde durante uma hora vários assuntos ligados ao tema são tratados. Desde o que é o amor, a sexualidade, o sexo e a paixão, com frases e reflexões diversas e ainda muita música romântica, Acústico RCV+ que divulga e promove os artistas nacionais privilegiando o lançamento de trabalhos discográficos ao vivo a partir do Espaço Multiusos da RTC (vulgo Auditório), o programa pretende privilegiar os artistas mais jovens. O programa tem como objectivo possibilitar o intercambio entre os artistas e o seu público ouvinte, uma vez que o público pode assistir o programa no auditório da RCV, Nobidadi di mundu di artistas (notícias breves, em 3 minutos, sobre as novidades do mundo artístico, com destaque para a música, dança, artes plásticas, literatura, etc). Ainda existe um espaço informativo, o Info+ que é o espaço da actualidade informativa nacional e internacional. Com a duração de 7 minutos vai para o ar às 10h,14h e às 17h. É emitido de segunda à sexta-feira, sendo que aos sábados apresenta-se a retrospectiva da semana às 10 horas.

Neste momento existem dois programas que estão suspensos por motivos de férias, Nôs Morna que durante 15 minutos de segunda à sexta-feira passa algumas mornas e Kartaz é um programa emitido a partir de São Vicente às quintas-feiras e tem a duração de 30mn, o programa fala sobre os acontecimentos culturais da ilha de São Vicente.

A RCV+ é uma rádio voltada essencialmente para os jovens e nesta linha tenta informar, formar e divertir os jovens com temas e músicas dos seus interesses. A nível de informação a RCV+ dispõe de informações 3 vezes ao dia (10, 14 e17 horas). Nesses serviços noticiosos, as notícias estão de alguma forma ligadas aos jovens ou lhes interessam.

Em relação as informações divulgadas nesse espaço são retiradas da Internet e da RCV através da rede interna, isso pelo facto, da RCV+ dispor de apenas um jornalista que é também o gestor da estação, Benvindo Neves. Enquanto que os outros trabalhadores da rádio são apenas animadores de antena. Ainda essa estação aposta em programas sobre saúde, cultura e jovens de sucesso no país. A RCV+ tem vindo a tentar contrariar a ideia de que as rádios voltadas para os jovens em Cabo Verde não transmitem apenas música, mas também tenta manter o seu público-alvo informado. A faixa etária dos seus trabalhadores pode ser considerada jovem. O que a diferencia da Rádio de Cabo Verde.

Podemos dizer que desde o surgimento da primeira rádio em Cabo Verde existem programas que de alguma maneira acabam por interessar aos jovens, inclusive vários foram os jovens que fizeram parte de forma activa no surgimento e desenvolvimento da rádio em Cabo Verde.

Autor(a): Irinita Andrade

segunda-feira, agosto 06, 2012

O Elo Mais Fraco I

Depois de vários anos à espera de políticas públicas eficazes que permitam à comunicação social responder com qualidade aos desafios inerentes ao processo de graduação de Cabo Verde a país de rendimento médio, assim como desempenhar com sucesso as suas atribuições numa sociedade que ser quer moderna e democrática, fomos, finalmente, brindados com um plano estratégico para o sector. No essencial, o documento recupera o diagnóstico já gasto e propõe uma terapêutica bastas vezes ventilada.

O plano de acção para a comunicação social cabo-verdiana, cujos traços gerais foram elencados durante o fórum “Caminhos da Liberdade” organizado pela DGCS, identifica como pontos fortes do nosso campo mediático, a liberdade de imprensa, o enquadramento legal, as reformas legislativas em curso, profissionais jovens, motivados, e à espera de oportunidades para mostrarem o que valem, a cobertura nacional da TCV, e parcerias com entidades estrangeiras.

Quanto aos pontos fracos, o estudo não poderia ter sido mais elucidativo: deficiente fiscalização, ausência de estudos de audiência, incipiente digitalização a nível das infra-estruturas e equipamentos, fraco controlo de gestão, dificuldades financeiras das empresas e uma forte dependência do Estado.

Deste cenário se conclui que é grande a responsabilidade que impende sobre o Estado. Desde logo, no sentido criar as condições que estimulem a competitividade do sector, mas também por ser o maior grupo económico (e ideológico) da comunicação social. Convém não esquecer que, apesar de ter deixado cair o jornal Horizonte, em 2007, o Estado detém ainda uma rádio e uma televisão públicas, que dominam o mercado audiovisual, e uma agência de notícias.

Soa a paradoxo estar a defender a independência e a autonomia da imprensa e, ao mesmo tempo, a exigir que o Estado garanta a sustentabilidade das pequenas e medias empresas que laboram no campo mediático. Contudo, o actual estádio de desenvolvimento em que se encontra a quase totalidade dos meios de comunicação social obriga a que adopte, através de mecanismos transparentes, uma política consistente de incentivos, sobretudo, aos órgãos privados.

Se se considera que a imprensa é um dos pilares fundamentais para o processo de transformação de Cabo Verde, compete ao Estado encontrar mecanismos que permitam financiar o seu desenvolvimento e a sua modernização. Em bom rigor, é chegado o momento de a comunicação social constar da agenda de prioridades do governo, de quem se espera, aliás, uma visão estratégica e políticas públicas claras. Os desafios que Cabo Verde tem pela frente são ingentes e só serão vencidos, ou, minimizados, com o concurso de uma comunicação social forte e autónoma, capaz de contribuir para o debate das grandes questões que se nos colocam nesta encruzilhada do desenvolvimento.

No sector público, no obstante alguns investimentos, as reformas estruturantes estão ainda por se fazer. Comecemos pelo financiamento. Desde a criação da RTC, já lá vão quinze anos, ouve-se falar na assinatura de um contrato de concessão entre a Rádio e Televisão cabo-verdiana e o Estado. Trata-se de um mecanismo que irá clarificar as obrigações das partes em matéria de prestação de serviço público aos cidadãos. Mais do que os recursos financeiras - as responsabilidades do estado serão acrescidas – julgo que tem faltado vontade política para se dar o passo decisivo com vista à autonomia e à independência da RTC.

Há ainda uma outra questão que, recorrentemente, vem à tona, sobretudo com o aproximar das eleições. Falo da reestruturação da RTC. Na conferência para assinalar os 10 anos da criação da RTC, realizada em 2007, a então ministra, Sara Lopes, mostrava-se convicta dessa reforma: “Uma prioridade para os próximos meses será a reestruturação da RTC, com vista a reduzir e eliminar paulatinamente os elementos de ineficiência. A estrutura organizacional da empresa, a transferência tecnológica que é urgente, a adequação do quadro de pessoal em termos de perfil, mas também o peso de pessoal na estrutura de custos da empresa, são decisões que deverão ser tomadas com urgência para que possamos criar as condições básicas para que a RTC possa estar a altura das expectativas dos cabo-verdianos.

Entre o plano das intenções e a execução das decisões, vai uma grande distância. É basta ler os programas dos governos para se aquilatar do desfasamento entre o discurso e a prática. Razão tem o presidente do conselho de administração da Inforpress ao dizer que a empresa não constituiu, nos últimos anos, prioridade semelhante aos restantes serviços do estado. “Na verdade, os duodécimos canalizados para efeitos de funcionamento e outras despesas afins não têm sido actualizados desde 2002, sendo também verdade que os investimentos por parte dos sucessivos executivos têm-se revelado francamente insuficientes” (Correia, 2011).

Como dar o salto rumo à modernização almejada com níveis minguados de investimento? Note-se que no caso da agência, a situação tende a complicar-se uma vez que por lei está impedida de se socorrer da publicidade para o seu financiamento. O princípio do “utilizador-pagador” afigura-se como uma estratégia inteligente para a rentabilização financeira da empresa, mas depende da qualidade e da diversificação dos conteúdos.

O Governo prometeu levar ao Parlamento, no primeiro trimestre de 2008, algumas medidas no sentido de promover a reestruturação da televisão e da rádio, e de renovar os mecanismos de financiamento que, no dizer da então tutela, “neste momento seguem modelos pouco eficazes, porque irregular, porque imprevisível. Sara Lopes lembrou, no entanto, que nem sempre se diz tudo aquilo que o Estado investe na comunicação social, sobretudo na RTC.

A comparticipação do Estado nos órgãos públicos, esclareceu a ministra, não se restringe apenas ao subsídio de compensação indemnizatória. “A maior parte dos investimentos realizados, seja com vista a se conseguir a universalização da cobertura, que é um objectivo prioritário, a modernização tecnológica e a criação das condições de trabalho, passam, quase sempre, pelo financiamento do Estado, seja através do orçamento do estado, seja através de meios financeiros mobilizados através da ajuda ao desenvolvimento”.

Uma coisa é certa, os contratos de concessão com a RTC e a Inforpress continuam a marcar passo. Com a rádio e a televisão o documento, em princípio, pode ser assinado ainda no decorrer deste ano, pelo menos, é esta a promessa do chefe do Governo que, contudo, foi lembrando que a empresa dispõe da taxa paga pelos cidadãos através das facturas de electricidade. A ver vamos.



segunda-feira, julho 23, 2012

Um gigante com pés de barro

O Presidente da Republica, por diversas vezes, tem-se referido à comunicação social, a par da justiça, como um dos pilares mais frágeis da democracia. Ainda antes de ser eleito, o Dr. Jorge Carlos Fonseca prometia, em entrevista ao A Semana, ser um presidente defensor do reforço da liberdade de imprensa. “Costumo dizer que a nossa democracia ainda é frágil porque são frágeis os pilares do Estado de Direito. “Não temos uma opinião pública consistente, forte, capaz de funcionar como uma instância crítica e fiscalizadora dos poderes. Isto tem a ver com a comunicação social e com a sociedade civil que ainda é fraca.” Mais recentemente, o Presidente da Republica tem defendido uma “comunicação social mais autónoma, objectiva e interventiva.”

Tenho por mim que uma das causas da debilidade da imprensa cabo-verdiana radica na exiguidade e na pobreza do nosso mercado. Os meios de comunicação social não são, como se pode pensar, grupos altruístas de profissionais com o único objectivo de informar correctamente sobre o que acontece. São empresas que visam o lucro ou, pelo menos, têm a saudável intenção de sobreviver, de responder, como qualquer outra, ao objectivo prioritário de maximizar os seus benefícios.

Um dos benefícios da estruturação dos meios como empresas e o seu consequente reforço económico é, precisamente, a independência face aos poderes político, empresarial, económico, religioso ou de outra natureza, que queiram impor condições ou exercer pressões. Mas, como “não há bela sem senão”, a procura do lucro e a concorrência no mercado têm levado os media a deslizes éticos e deontológicos, um fenómeno, convenhamos, ainda pouco expressivo entre nós.

Do ponto de vista socioeconómico, temos um mercado interno de pouco menos de meio milhão de pessoas (quase o dobro no exterior), sendo que mais de metade vive nas cidades, uma grande dispersão geográfica, e uma população maioritariamente feminina. Nos últimos dez anos houve uma diminuição da taxa de analfabetismo de 23% em 2000, para 17% em 2010. O país ocupa a 133ª posição, num universo de 187 países, no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Em termos de hábitos de leitura, segundo os dados do inquérito da Afrosondagem sobre a Satisfação e Audimetria (2011), 29% dos inquiridos nunca leram um dos jornais nacionais e 54% não tinham lido nenhum dos jornais nas últimas 4 semanas anteriores ao estudo. Como se não bastasse, a economia cresce em torno dos 5 por cento, incapaz de reforçar o poder de compra e o bem-estar à medida dos anseios dos cabo-verdianos.

É neste contexto que se deve analisar o desempenho da comunicação social, um sector pouco atractivo ao investimento estrangeiro, e que desde sempre viveu com a corda ao pescoço. O fraco poder económico e o sufoco financeiro não permitem às empresas apostarem na capacitação e especialização dos recursos humanos, na modernização das infra-estruturas tecnológicas, e tão-pouco na melhoria da qualidade dos conteúdos e dos serviços (produtos) que oferecem aos cabo-verdianos. Uma imprensa que não pode contar com o mercado e, principalmente, com a publicidade como principal fonte de financiamento, para além de não poder realizar um jornalismo de excelência, corre o risco de alienar a sua independência, imparcialidade e objectividade, se depender de fundos de proveniência duvidosa ou de entidades que apostam no controlo e na manipulação do poder editorial.

Aquando do fórum, pomposamente, denominado “Comunicação Social – Momento de Viragem”, realizado pela DGCS, em 2006, a jornalista Filomena Silva apresentou um diagnóstico realista de um sector que clama, há muito, por um urgente programa-choque. No dizer da directora do A Semana, “a televisão pública está longe, muito longe mesmo, de cumprir o papel de informar com qualidade, de educar com qualidade, de servir como opção de acesso ao conhecimento (…) a rádio Nacional também, em linhas gerais, carece de recursos humanos com qualidade, não tendo acompanhado em termos de ritmo e de estilo o que vem sendo feito lá fora, sendo a formação (ou a falta dela) um problema de que enferma o sector.

Quanto à imprensa escrita, as incertezas são muitas: “Estarão os jornais existentes a responderem com qualidade à necessidade de informação a que o publico tem direito? Estarão eles em condições de acompanhar os novos desafios em termos de qualidade e diversidade de informação e de aumentar as suas tiragens, num quadro de crescimento da população? Ou sucumbirão ao avanço da televisão, um meio aparentemente mais barato e acessível ao publico? Estarão outros serviços, como as gráficas, em condições de acompanhar a necessidade de desenvolvimento do sector? Haverá profissionais das diversas áreas capacitados para trabalhar neste sector tão especifico e exigente?

O que mudou de lá para cá na paisagem mediática cabo-verdiana? Pouca coisa. Sem realizar um estudo de viabilidade do mercado, o Estado concedeu, pela via de concurso público, alvarás para difusão a quatro operadores privados de televisão, estando a emitir apenas a Record Cabo Verde e a TIVER. No sector público, o Estado, finalmente, desengajou-se da imprensa escrita. No entanto, apesar das melhorias evidentes na Inforpress, o grande salto em matéria de qualidade está ainda por acontecer, tudo por causa da indefinição do Governo em relação ao modelo de negócio e de sustentabilidade financeira desse importante órgão de comunicação social.

Na RTC, para além de apoios pontuais na rede de difusão, o executivo limitou-se a incentivar a administração a recorrer à banca para a introduzir melhorias tecnológicas na RCV e TCV, sem que se possa ainda falar de uma rádio e televisão digitais, como por vezes se ouve dizer, com ligeireza. O contrato de concessão parece ter sido relegado para as calendas crioulas.

A fragilidade económica de algumas empresas de comunicação social é confrangedora, e os seus efeitos fazem-se sentir de várias maneiras, desde a precariedade laboral através de contratos de trabalho a termo, ou a inexistência de qualquer vínculo laboral, passando pela falta de condições de trabalho, baixos salários, até exploração de mão obra estudantil, a coberto de estágios profissionais, etc. Uma situação já denunciada pelo sindicato dos jornalistas, AJOC.

Continua...

segunda-feira, julho 09, 2012

Quem tem medo dos políticos? (III)

Passado o frenesim das eleições autárquicas, retomo as minhas reflexões em torno do relacionamento entre os políticos e os jornalistas em Cabo Verde. Para este exercício crítico tenho-me servido, como pretexto, das afirmações do debutado Abraão Vicente proferidas no jornal Expresso das ilhas nas vésperas do dia mundial da liberdade de imprensa.

Que não se pense que a minha intenção é a de responder ao ilustre representante da Nação. De maneira nenhuma, até porque não vislumbro razões, quer pessoais, quer profissionais, para o fazer. Aliás, as declarações do sociólogo e poeta estão, de algum modo, em sintonia com as posições expendidas pelo próprio Primeiro-Ministro, por ocasião do pequeno-almoço com jornalistas para comemorar a entrada de Cabo Verde para o top ten da liberdade de imprensa, embora não no tom contundente, peculiar do Abraão Vicente.

No texto inaugural desta série (Quem tem medo dos políticos I?) demonstrei, com argumentos científicos, que a crítica que o debutado faz aos jornalistas cabo-verdianos encontra guarida nas teses esposadas pelos defensores do jornalismo cívico e, igualmente, no arsenal teórico que tem sido utilizado para combater o cini-jornalismo, uma corrente que emergiu nos Estados Unidos, mas cujos efeitos se fazem também sentir na Europa.

De seguida empreendi uma viagem no tempo, não tão demorada como gostaria, para tentar perceber o contexto social e político em que se exerceu o jornalismo durante o regime de partido único (Quem tem medo dos políticos II?). A conclusão óbvia é a de que na “democracia revolucionária” havia, como salientou o jornalista David Leite, a “ liberdade de se exprimir desde que não se exprimisse!”

Detenho-me agora na segunda República. Não obstante os princípios ideológicos e as declarações de intenção apregoados, a convivência entre o Movimento Para a Democracia e a comunicação social foi tudo menos pacífica.

Na sua tese de mestrado, publicada depois em livro, com o título “Mal-estar no jornalismo cabo-verdiano”, Isabel Lopes Ferreira demonstra, ao pormenor, a divergência entre os discursos grandiloquentes de pluralismo e liberdade de imprensa e a postura arrogante e autista do governo do MPD, durante as duas legislaturas em relação aos media.

Para já, sublinha a autora, “o dialogo com os jornalistas cessou em 1991, com o corte de relações com a AJOC. O motivo invocado foi a colagem da AJOC à oposição (…) o pretexto para o corte de relações foi o incidente com o jornalista que cobria a mudança de móveis entre casas do Estado atribuídas a governantes, cobertura essa que o jornalista foi impedido de realizar”.

Júlio Vera-Cruz Martins, o jornalista em causa, viria a ser depois, compulsivamente, transferido da Rádio Nacional para a Cabopress, por despacho do Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-ministro, que sustentava a sua decisão na “conveniência de serviço”. Em causa estava a entrevista, no dia 4 de Fevereiro, no espaço informativo 13-14, do conhecido advogado Rui Araújo, uma figura próxima do PAICV, que teceu considerações sobre o perfil dos candidatos presidenciais, tendo questionado “a imagem de competência, de independência e de capacidade decisória” de António Mascarenhas Monteiro, apoiado nesse pleito pelo MPD.

A aplicação da Constituição no que diz respeito às rádios não pôde ser feita até ao período final da primeira legislatura, porque o governo não se esforçou por regulamentar os concursos para a atribuição de frequências, o que só veio acontecer em Fevereiro de 1998. Quanto à televisão, o concurso não foi implementado, o que só veio a acontecer em 2007. Assim, o espaço mediático, em relação ao qual o MPD falava em privatização, continuou ao longo das duas legislaturas como pertença maioritária do Estado e de Estados e instituições da simpatia do Governo, como são os casos da França, Portugal e da igreja católica. Excepção feita à imprensa, cuja liberalização tinha sido já feita durante o regime de democracia revolucionária.

A limitação da responsabilidade do Estado aos serviços públicos de rádio e televisão, ou seja, a desresponsabilização em relação ao jornal e à Agencia Noticiosa, cuja necessidade foi várias vezes afirmada pelo Governo, nunca aconteceu (Ferreira, 1998:335).

As promessas de apoio consistente à imprensa privada, através de mecanismos legais, também só se concretizaram em 1998. A produção de um enquadramento legislativo pormenorizado, relativo aos jornalistas, que incluía desde a revisão do Estatuto do jornalista, até ao plano de Cargos, Carreiras e Salários para os media estatais, passando por diversas outras leis e normas, exigida em ambas as legislaturas pelos jornalistas e gestores dos media públicos, só foi feita em 1998.

A eleição pelos jornalistas, dos seus chefes de redacção e directores, nunca aconteceu, nem foi consagrada legalmente. Solução que, diga-se, ainda hoje não foi implementada. Os responsáveis pela pasta dos media foram frequentemente mudados e raramente cumpriram mandatos que chegassem a um ano e meio.

No prefácio à colectânea “Contexto Jurídico dos media em Cabo Verde”, coordenada por Sofia Centeno, Leão Lopes, que ocupou a pasta da comunicação social durante um hiato de tempo bastante curto, reconhece que as fragilidades e os insucessos das políticas do sector parecem ser mais evidentes que os ganhos e conquistas. “Se fizermos um paralelo entre o legislador e o que decorre no terreno, logo se pode constatar um deficit na concretização de objectivos no plano político e legal, o que parece expressar uma falta de vontade ou uma inércia na capitalização e realização dos ganhos processados de 1991 a esta data” (finais da década de 90).

A imprensa privada ainda é incipiente e a imprensa do estado, paradoxalmente, se reforça. Mais uma vez se pode provar, diz Leão Lopes, que as políticas do sector da comunicação social, pela complexidade e dificuldades na sua implementação no terreno, surgem sempre como um “Calcanhar de Aquiles”dos sistemas políticos em mudança na nossa região e não só.

No sector em questão, acrescenta Lopes, não bastam leis e a modernização dos meios de produção da imprensa oficial. “Há que definir os limites e as políticas do serviço público do sector, de forma clara e refrear o protagonismo do estado na imprensa. Infelizmente, tirando algumas tímidas e avulsas medidas, o Estado (que muitas vezes se confunde com o próprio Governo) continua a ser o principal grupo económico e ideológico na comunicação social em Cabo Verde.

No dizer de Isabel Lopes Ferreira, o único ministro da Comunicação Social que, com lucidez, reafirmou a sua confiança nos jornalistas e transmitiu uma imagem positiva dos mesmos; que tomou a decisão de entregar a gestão da informação na televisão a uma técnica de comunicação social com formação superior, técnica essa que começou por tomar uma posição de força relativamente, por exemplo, à leitura de comunicados do Primeiro-Ministro; e o único ministro que reafirmou o seu desejo de reactivar o Conselho de Comunicação Social, foi Úlpio Fernandes. Mas, sublinha, prontamente viu as suas decisões publicamente contrariadas pelo primeiro-ministro, e a sua autoridade esvaziada.

A escolha de um ministro com ligação à área do jornalismo no seu curriculum, só aconteceu em 1996, com a nomeação de José António dos Reis. As suas decisões apenas vieram a concretizar-se em 1997 e 98. Apesar de tudo, acabou por pedir exoneração por diferendos com o primeiro-ministro.

Uma das marcas de José António dos Reis no panorama mediático cabo-verdiano foi, sem margem para dúvida, a controversa reestruturação da RTC. Numa conferência sobre o “serviço público de rádio e televisão na consolidação da democracia”, realizada pela RTC, em 2007, o ex-ministro reconhecia que a Rádio Televisão Cabo-Verdiana nasceu num quadro de ruptura. “Ruptura quanto à natureza: os órgãos públicos de comunicação social eram então considerados serviços administrativos autónomos do Estado; Ruptura quanto ao figurino organizativo, passando dos serviços administrativos autónomos para uma empresa com a designação da RTC.

Segundo o super-ministro que tutelava, entre outras pastas, a comunicação social, a empresa foi formatada para funcionar com uma estrutura de custo de funcionamento que lhe permitisse folga para apostar no investimento, designadamente nas suas infra-estruturas e equipamentos. Muitas promessas no acto da criação da RTC não foram cumpridas, devendo ser sintetizadas nas seguintes questões:

“Assinatura de um contrato de prestação de serviço público que reflectisse a exigência de uma programação de qualidade a par de uma adequada indemnização compensatória; Um novo edifício (e não enxertos, acrescentamos nós) para a televisão com outras condições de trabalho e mais condizente com a missão que se atribui à RTC; Uma gestão rigorosa baseada em objectivos precisos, quer em termos económico-financeiros, quer em termos da valorização dos recursos humanos; Desenvolvimento de um comportamento empresarial com enfoque para a cultura de resultados, etc.” Portanto, medidas de fundo, ou se quisermos, uma verdadeira transformação que parece ter sido relegada para as calendas gregas.

Na verdade, a génese da RTC é tudo menos pacífica. Tratou-se de uma decisão política gizada nos gabinetes que não contou com a anuência, nem a colaboração dos trabalhadores. Ou pelo menos, o projecto não foi devidamente, como se diz hodierno, socializado, discutido, com os principais actores da revolução que se propunha alcançar.

A junção da rádio e da televisão sob a chancela da RTC foi uma espécie de casamento encomendado, contra a vontade dos noivos. Apesar dos esforços dos conselhos de administração em gerir uma empresa única, são nítidos os anticorpos de ambos os lados das estações, o que denota uma incipiente cultura organizacional.

As justificações para a criação da novel empresa eram até razoáveis: redimensionamento da empresa (o mesmo é dizer emagrecimento, com base no despedimento), ajustando-a aos objectivos e missão; busca de sinergias entre os dois órgãos a RTC-FM e a RTC-TV, apostando na economia de escala; modernização tecnológica; qualificação dos recursos humanos; aposta na qualidade do serviço público, etc.

Os primeiros instantes de laboração do novo operador de serviço público deixam a nu uma contradição entre os discursos e a realidade vivida na empresa. Assiste-se a lutas intestinas nos vários níveis de comando; despedimentos sem fundamentos legais ou de outra natureza laboral, que não fossem os de silenciar os jornalistas mais críticos com o partido do governo; admissões despidas de critérios de mérito e competência; desentendimentos entre a administração e os jornalistas, etc.

Registam-se também algumas experiências contra-natura em matéria de gestão dos órgãos. Há administradores travestidos de directores de conteúdos, coordenadores “de não se sabe bem o quê”… enfim, um ambiente verdadeiramente dantesco.

Quem se der ao trabalho de compulsar os jornais da década de 90, apercebe-se de um clima de tensão entre os actores políticos do arco do governo, os jornalistas e a associação da classe, AJOC. Os processos judiciais contra os jornalistas e os directores da imprensa privada, nomeadamente o jornal A Semana e o Notícias, são o “pai-nosso” de cada dia. A isso se junta a contratação de assessores brasileiros, não para capacitação técnica dos quadros cabo-verdianos, como se chegou a aventar, nem tão-pouco para induzir qualidade ao serviço público de rádio e televisão, mas, quando muito, para reforçar a manipulação, a propaganda e o marketing político à favor do regime.

Em Cabo Verde, escreve o jornalista José Leite na revista Direito e Cidadania (1999:91:94) “o direito à informação que a Constituição consagra como um direito e uma garantia, é uma liberdade fundamental que pressupõe o direito à expressão sem constrangimentos de espécie alguma, a não ser as previstas na lei, mas, amiúde, é posta em causa por comportamentos e decisões que atentam contra esse direito constitucional. Violações essas praticadas conscientemente por actores da cena política, pessoal administrativo e dirigente e profissionais e agentes da comunicação social.

O jornalista, que viu o programa informativo que editava na RCV, “Noite Ilustrada”, ser, abruptamente, suspenso por ordens expressas da então directora da estação, Salomé Monteiro, por ter, alegadamente, insistido no debate da situação anómala criada pela auto-suspensão de Carlos Veiga do cargo de Primeiro-Ministro, reconhece que não houve um corte com o passado. “A democracia pluralista não chegou convenientemente aos órgãos de informação. Os valores democráticos, as leis democráticas, os comportamentos exigidos pelo sistema não chegaram adequadamente ao sector…

Pelo mesmo registo alinha a jornalista Rosana Almeida, para quem “os primeiros passos da comunicação social cabo-verdiana estão a ser marcados, essencialmente por choques de interpretação, onde o político e o legal se confrontam” (1999:117).

Na sua tese de doutoramento “Políticas de comunicação e liberdade de imprensa, análise da situação cabo-verdiana de 1991 a 2009”, o jornalista e docente universitário, Silvino Évora, demonstra a discrepância que existe entre os discursos dos governos do MPD e do PAICV, e a sua actuação prática neste sector. Infelizmente, apesar de ter sido galardoada com um prémio do ministério da Cultura, faz agora dois anos, com a menção expressa da sua publicação, a obra continua ainda remetida a um fundo esconso de uma qualquer gaveta no IBNL, à espera de saltar para os escaparates. É pena porque essa investigação põe a nu, de forma científica e cristalina, as fragilidades da nossa imprensa enquanto pilar da democracia. Não me admira que a sua publicação aconteça só quando formos os campeões mundiais da liberdade de imprensa!

Isabel Lopes Ferreira (1998) conclui, por isso, que as causas do mal-estar no jornalismo cabo-verdiano na década de 90 radicam na política de protelação levada a cabo pelo governo. Com efeito, diz, “o primeiro-ministro tinha realmente intenção de cumprir as promessas formuladas em 1991 e durante os mandatos, e cumpriu-as. Mas apenas quando considerou o momento conveniente para a sua posição. Todos os outros factores, como a desunião dos jornalistas, o culto do medo do desemprego, as acusações de censura e de estímulo da auto-censura, os constrangimentos materiais (…) derivam do primeiro”.

Continua…













segunda-feira, julho 02, 2012

Pé de Microfone


Uma democracia repousa na possibilidade de se exprimir opiniões diversas e sobre o voto de cidadãos bem informados. Os meios de comunicação social e os jornalistas desempenham, por conseguinte, um papel crucial durante o processo eleitoral ao assegurarem a circulação de informações, opiniões e a sua confrontação. 

E isto permite um melhor conhecimento dos candidatos, dos partidos e respectivos programas. Os media contribuem sobremaneira para a participação efectiva dos cidadãos no debate democrático, mormente ao trazerem para a praça pública mediática, durante a campanha eleitoral, os temas de interesse geral. 

Em Cabo Verde, infelizmente, a concretização dessa missão cometida à imprensa pela organização Repórteres sem Fronteiras, no “Guia Prático do Jornalismo em Período Eleitoral”, tem sido cada vez mais difícil em virtude da uma limitação claramente ilegítima imposta pelo código eleitoral no seu artigo 105º. 

A mesma lei que atribui às entidades proponentes de lista, aos candidatos e aos próprios cidadãos o direito de livre expressão de ideias e princípios políticos, económicos e sociais (art. 104), proíbe, acto contínuo, os meios de comunicação social de, entre outras coisas, “difundir propaganda política ou opinião favorável ou desfavorável a órgãos de soberania ou autárquicos, a seus membros, e a candidato, partido, coligação ou lista; difundir programa com alusão crítica a candidato, partido, coligação ou lista, mesmo que dissimuladamente, excepto tratando-se de debates políticos ou sobre as eleições”.

Nas suas anotações ao Código Eleitoral, o jurista Mário Silva (2005:103) cita, nem propósito, um acórdão do STJ, segundo o qual, em sede de campanha eleitoral “é necessário e se impõe que se dê toda a liberdade de expressão aos concorrentes, por todas as vias, para que possam livremente e com eficácia transmitir as suas mensagens ao eleitorado, expondo e debatendo as suas ideias, fazendo promessas, propondo soluções, esclarecendo dúvidas, apontando pretensos defeitos às outras candidaturas, criticando os adversários”. 

Toda esta liberdade de expressão visa o esclarecimento dos cidadãos para que possam exercer o seu direito de voto de forma consciente e verdadeira. Ou seja, enquanto os actores políticos, os candidatos, beneficiam de uma esfera de acção sem quaisquer peias, aos media, através dos quais os cidadãos exercem o seu direito de informar e de ser informado, colocam-se entraves de toda a ordem. 

Estamos pois perante um artigo inconstitucional e que urge alterar em nome de uma imprensa livre, forte e plural. Note-se que a RSF aconselha os meios de comunicação social, durante a campanha eleitoral, a realizar debates entre os candidatos; mesas redondas com a participação de um painel de especialistas; emissões interactivas, na rádio e na televisão, que permitam aos concorrentes apresentar as suas ideias e responder em directo às questões dos cidadãos; reservar, na imprensa escrita, espaços e número de páginas destinados à livre expressão de opinião dos candidatos, eleitores, especialistas e dos próprios jornalistas, através de editoriais e comentários.

Por causa dessa lei draconiana, os meios de comunicação social cabo-verdianos praticamente têm-se cingido ao relato das propostas dos diversos candidatos e às acções de campanha, sem as confrontar e analisar, sobrevalorizando a igualdade de oportunidade e de tratamento, em detrimento dos critérios jornalísticos. Mas mais, as estações de rádio e televisão, sobretudo as públicas, optam por retirar da grelha todos os programas de informação que, de certo modo, ponham em xeque o famigerado artigo 105º do CE, nomeadamente os debates, as grandes entrevistas e até, imagine-se, a revista de imprensa. Só é pena que lá deixem ficar os programas institucionais do Governo. Ou seja, num contexto em que os cidadãos precisam de cada vez mais informação para que possam conhecer as diversas propostas e ideias em liça, formar a sua opinião e, logo, votar de forma esclarecida, damos-lhes música em troca. 

Antes de deixar a presidência da CNE, a magistrada Rosa Vicente alertou para a urgência de se dar uma melhor atenção ao Direito eleitoral. E, de facto, assim é. O artigo que limita a actuação da comunicação social não é a única incongruência do CE, há outras mais escorregadias. Por exemplo, a interdição da divulgação e o comentário dos resultados de quaisquer sondagens ou inquéritos de opinião, desde o início da campanha eleitoral e até a hora de fecho das mesas de assembleias de voto (art. 99º). 

Há outra igualmente perigosa, do meu ponto de vista. Faz sentido a Comissão Nacional de Eleições ter como um dos seus assessores permanentes “um profissional da comunicação social designado pelo membro do Governo responsável pela área da comunicação social”?  

Aquando das últimas eleições legislativas resolvi suspender da grelha, com base no nº 2 do tão falado artigo 105º do código eleitoral, todos os programas institucionais do Governo. Fi-lo por considerar que a emissão desses conteúdos produzidos por assessores de imprensa dos ministérios punha em causa os princípios de neutralidade e imparcialidade que norteiam um operador de serviço público, sobretudo durante o período eleitoral. Como era expectável, as pressões vieram de dentro e de fora da RTC, mas a todas suportei, irredutível, por acreditar que a lei e a razão estavam do meu lado. Ainda assim, para legitimar a minha decisão, expus a situação à consideração da CNE.

Baseando-se num parecer do assessor permanente para a imprensa, que é, nem mais nem menos, o próprio Director Geral da Comunicação Social, a CNE através de uma deliberação, comunicava, dias depois, à direcção da rádio pública que não via qualquer problema na emissão desses espaços de propaganda, mesmo durante o período eleitoral. Uma decisão a todos os títulos infeliz por parte de quem deve garantir a igualdade de tratamento por parte dos media a todos os candidatos no pleito eleitoral. Ora, como se explica que a CNE mande o governo retirar das ruas outdoors onde publicita realizações e recomende a suspensão da revista da Administração Pública, por considerar tratar-se de peças de propaganda do executivo, e, por isso, susceptíveis de abusar da bondade dos eleitores… e considere normal que a rádio de serviço público mantenha no ar programas dos ministérios? Felizmente prevaleceu a minha decisão, uma vez que os produtores desses programas reconheceram as armadilhas do artigo 105º do CE. 

Agora que terminou o ciclo eleitoral com as autárquicas do passado domingo, é hora de se pensar seriamente na revisão, mais uma, da lei eleitoral, expurgando-a dos resquícios do partido único, extemporaneamente, recuperados na década de 90. No que à Comunicação Social diz respeito, espera-se uma intervenção pró-activa do sindicato dos jornalistas, sob pena de a imprensa continuar a ser apenas uma caixa de ressonância dos actores políticos durante os actos eleitorais.

Carlos Santos

terça-feira, junho 19, 2012

Até Já

Em virtude de estar neste momento em plena cobertura da campanha para eleições autárquicas do dia 1 de Julho,  não me é possivel, para já, continuar com a série de posts sobre o relacionamento entre os media e a política em Cabo Verde. Aos muitos amigos que me têm seguido neste exercício de reflexão em torno da comunicação social, jornalismo e liberdade de imprensa, um até já.