quarta-feira, abril 20, 2011

Freedom House Analisa Liberdade de Imprensa

A organização americana sem fins lucrativos Freedom House, com sede em Washington, divulgou na segunda-feira (18/4) um amplo relatório sobre liberdade na internet em 37 países. Com 410 páginas, o estudo contou com financiamento das Nações Unidas. Em 2009, um relatório similar analisou 15 países.

Na pesquisa mais recente, nove destas 15 nações pioraram na avaliação de liberdade na internet, levando em conta quesitos como obstáculos ao acesso, limites ao conteúdo, vigilância sobre os internautas, entre outros. A maioria das novas nações estudadas também apresentou desempenho fraco.

A Estônia foi listada como o país com maior liberdade na internet, seguido pelos EUA, Alemanha, Austrália, Reino Unido, Itália, África do Sul e Brasil. O Brasil, por sinal, é o último país da lista a ser considerado "livre". A ele seguem Quênia, México e Coréia do Sul, "parcialmente livres". Entre as nações que possuem as políticas mais repressivas estão Irã, Mianmar, Cuba, China, Vietnã, Arábia Saudita e Tunísia.

Riscos

Irã, China e Rússia estão entre os países avaliados em 2009 e que tiveram aumento na repressão na rede. A Rússia – classificada como parcialmente livre – também foi listada em um grupo de países que, apesar de terem conquistado uma "relativa liberdade de expressão e comunicação na internet", sofrem o risco de piorar rapidamente. Neste grupo estão Tailândia, Jordânia, Venezuela e Zimbábue.

Especialmente na Rússia, onde a internet é, hoje, a plataforma menos censurada para o debate público, a situação é preocupante. Nos últimos dois anos, à medida que mais pessoas têm acesso à rede, mais a liberdade online é deteriorada. Foram contabilizados o bloqueio de sites da oposição, 11 prisões de blogueiros nos últimos 17 meses, e indícios de que funcionários do governo estariam contratando internautas para divulgar propaganda do partido de situação.

A China é outro caso que merece destaque. Com a maior população online do mundo, continua a incrementar suas estratégias de controle da rede, minando o espaço para atividades anônimas e criando leis vagas que obrigam as companhias de internet a censurar seus usuários. Ainda que seja possível driblar os filtros impostos pelas autoridades, o relatório afirma que as técnicas de controle têm obtido sucesso. Menos de 15% dos cidadãos pesquisados já ouviram falar do ativista Liu Xiaobo, vencedor do prêmio Nobel da Paz em 2010, preso desde 2008. Com informações do Financial Times[18/4/11].

segunda-feira, abril 18, 2011

Pelos Caminhos da Rádio Digital

Cabo Verde prepara-se para adoptar a TDT, Televisão Digital Terrestre, em 2015. Pelo que julgo saber existe uma directiva do Governo neste sentido que, para o feito, também criou uma comissão integrada por especialistas encarregue de analisar os vários aspectos tecnológicos subjacentes à implantação da televisão digital terrestre.

Desconheço se a decisão política também engloba a rádio. Pelo menos, das declarações públicas quer do responsável da ANAC – Agência Nacional das Comunicações – quer da DGCS, não se depreende qualquer alusão à rádio digital e muito menos ao sistema tecnológico que lhe servirá de suporte.

Se em paralelo com a televisão, Cabo Verde pretende também adoptar emissões no formato rádio digital terrestre, trata-se então de uma informação preciosa aos cidadãos que não devem ser ignorados no decorrer do processo, até aqui circunscrito à esfera de decisão dos actores políticos e técnicos. O debate deve ser alargado aos principais destinatários dessa revolução que não é apenas tecnológica, mas que engloba a oferta em termos de conteúdos.

Independentemente da decisão já tomada ou que vier a ser tomada, é liquido que a rádio não pode ficar de fora do mundo digital, presa a antiquadas tecnologias dos anos 30, como a Onda Média (AM), e dos anos 60, a Frequência Modulada (FM). A rádio ou apanha o comboio do digital ou passará à história.

É bom que se diga que hoje praticamente todas as estações de rádio cabo-verdianas trabalham com equipamentos digitalizados, com excepção dos emissores, o que nos encoraja a concluir que a rádio do futuro é pois digital.

quinta-feira, março 17, 2011

A Rádio Digital é o Futuro

A Rádio de Cabo Verde (RCV) está neste momento a preparar a implementação de uma plataforma digital profissional que integra todas as funcionalidades de uma estação de rádio do ponto de vista de gestão de áudios.

Trata-se, de acordo com o director da estação emissora, Carlos Santos, do sistema Rádio Assist 8, um aplicativo desenvolvido pela empresa francesa NETIA e que vai permitir a ligação de todas as estruturas da RCV na Praia, no Mindelo, na Assomada, no Sal e no Fogo.

Conforme explicou o responsável da RCV esta plataforma permitirá, desde logo, melhorar as condições de trabalho dos jornalistas, operadores e animadores de cabine, melhorando assim a eficiência e a qualidade do trabalho técnico a nível da rádio.

“O jornalista, por exemplo, passará menos tempo a preparar a sua peça. Antes estava constantemente a mudar de plataforma. Editava o seu som em ‘sound forge’, escrevia o texto no word e depois podia fazer montagem em vegas. Mas agora passará a utilizar uma única plataforma, o ambiente digital Netia”, explicou Carlos Santos.

“A nível da gestão da programação, o sistema representa uma mais-valia na gestão da grelha, facilitando o alinhamento da emissão, as ‘playlist’, os ‘jingles’, as publicidades e possibilita ao director de programas acompanhar, em tempo real, a execução da sua grelha”, exemplificou.

A plataforma deverá estar a funcionar, o mais tarde, em finais de Abril, de acordo com as previsões do director do Gabinete Estudos e Planeamento, Francisco Monteiro.

Hoje arrancou a primeira fase de formação destinada aos profissionais da ilha de Santiago. A mesma acção será realizada na ilha de São Vicente e no Sal, no sentido de preparar todo o pessoal para a utilização dessa plataforma.

Esse projecto está orçado em cerca de 26,5 milhões de escudos financiado pela empresa-mãe, a Rádio Televisão Cabo-verdiana (RTC), que na sua implementação conta com a parceria da Rádio France Internacional (RFI).



MJB
Inforpress/Fim

quinta-feira, março 10, 2011

Crónicas que a Vida Conta

O jornalista Daniel Medina apresentou na semana passada na cidade da Praia o seu primeiro livro de crónicas. A obra é fruto de uma profícua colaboração que o autor vem mantendo há vários anos com a Rádio de Cabo Verde, onde apresenta uma rubrica semanal, que antes vestia o género crónica e agora, com a nova programação, assume o formato de “consultório da língua portuguesa”.

Logo a abrir a sua colectânea de crónicas, Daniel Medina sentiu-se na necessidade de explicar àqueles que o vão ler que os textos foram escritos para a rádio, ou seja, para serem ditas e não simplesmente lidas ao microfone.

É que a linguagem radiofónica pode confundir ainda mais os menos avisados. A rádio é, indubitavelmente, o meio de comunicação que mais condiciona a mensagem. Marshall MacLuhan não podia estar mais certo quando declarou que “o meio é a mensagem”.

Partindo do pressuposto de que os meios são “extensões do homem” – como se fossem prolongamentos do corpo, próteses de sentidos que condicionam mudanças no nosso comportamento, o autor canadiano, citado por Daniel Medina, conclui que a era electrónica abalou os fundamentos enraizados na experiência do mundo do homem tipográfico, porque o colocou imerso num mundo visual, áudio-tactil, simultâneo e tribalizado, muito diferente do mundo linear criado pela cultura letrada, pela tipografia.

Essa força arcaica da rádio está na própria natureza tecnológica do meio. Ao produzir imagens auditivas, a rádio cria um ambiente totalmente inclusivo e absorvente que propicia às pessoas um mundo particular em meio às multidões. Alarga o sentido da audição e as faculdades humanas, tornando-se uma extensão do sistema nervoso central. Por essa característica, altera os índices de sensibilidade ou modos de percepção.

Ao reflectir sobre as palavras, o autor considera que elas têm o condão de nos atrapalhar em certas ocasiões. Por vezes são tão escorregadias que desaparecem quando mais precisamos delas. Com efeito, há uma procura incessante da palavra na rádio.

Nenhum jornalista de rádio ou colaborador, por mais experiente que seja, deve esquecer que as condições de escuta condicionam fortemente a mensagem. A rádio tem uma grande vantagem que é a acumulação: ou seja, posso ler, conduzir, cozinhar, realizar mil e uma tarefas e ouvir rádio ao mesmo tempo. Dificilmente se consegue fazer isso em relação à televisão ou ao jornal. São órgãos que monopolizam.

Não é possível escrever uma crónica para a rádio sem pensar que o ouvinte pode começar a ouvir a meio, perdendo, portanto, o início; que facilmente se distrai do que está a ouvir por causa do trânsito; mesmo estando em casa concentrado a ouvir, o telefone pode tocar, alguém bate à porta, etc. Tudo isso para dizer que quando escrevemos e quando falamos na rádio temos que nos rodear de alguns cuidados, por forma a aumentar o nível de descodificação da mensagem e diminuir ao máximo os ruídos. Não nos esqueçamos que a rádio é volúvel, etérea, sensorial e depende apenas de um sentido, a audição.

A escuta da rádio depende destas características. O ouvinte também: quando acorda com o despertador nas notícias do primeiro jornal às sete da manhã, que ouve meio a dormir; quando entra e sai da casa de banho, onde tem um rádio ligado; quando vai procurando no rádio do carro, a estação que mais lhe interessa em cada momento…

O autor de “Crónicas que a Vida Conta” conhece a fragilidade e a instabilidade da escuta da rádio, por isso aposta numa espécie de “diálogo mental” com o ouvinte. Uma estratégia de comunicação que não é fácil: Primeiro há que evitar a todo o custo que o ouvinte desconfie de que estamos a ler e não a falar – no fundo procuramos enganar o ouvinte. O jornalista ou o radialista terá ainda que se esforçar no sentido de levar o ouvinte a descodificar e a entender a nossa mensagem. Na rádio tudo se resume a escrever e a ler. Há uma supremacia do texto face ao som e à voz.

Há que escrever de forma simples e clara para que o ouvinte não fique com dúvidas enquanto ouve. É verdade que no nosso dia-a-dia comunicamos melhor a falar do que a escrever, mas é evidente que do ponto de vista do virtuosismo, quase todos nós escrevemos melhor do que falamos. Acontece que na rádio o virtuosismo não é válido… aqui interessa pouco a erudição, a complexidade, e o virtuosismo que a escrita permite e estimula. Por isso há quem defenda que a rádio é uma forma de literatura oral.

Como conciliar então a simplicidade e clareza da linguagem radiofónica, com as potencialidades estéticas e o apelo à imaginação, características próprias da crónica enquanto género jornalístico que mais se aproxima da literatura?

Das Crónicas que a Vida Conta resulta uma intercepção da subjectividade com a criatividade do cronista. Não há regras para realizar este tipo de crónicas. Estamos perante um estilo comunicante e empático. As crónicas lêem-se com muito prazer. A realidade serve de pretexto à crónica, mas o texto é imaginativo e bastante leve. Há registos poéticos e passagens bastante divertidas. Raramente o autor sugere ou propõe, antes amarra o ouvinte ao prazer da leitura, estimulando o seu intelecto.

Daniel Medina adopta uma escrita criativa que recusa os estereótipos e tenta surpreender, piscando o olho, sempre que possível, ao ouvinte… será quiça uma escrita metafórica, mais arriscada, que surpreenda, uma escrita que dá nova vida às palavras, construindo novas imagens – talvez mesmo alegórica, e sendo por isso mais sugestiva. Mas longe de ser uma escrita tão criativa que seja hermética, incompreensível e de difícil descodificação. Até porque é preciso não perder de vista que a palavra – quando é bem escolhida – tem a capacidade de evocar a imagem visual, de presentificar a realidade ausente.

Ao contrário da televisão em que as imagens são limitadas pelo tamanho do ecrã, as imagens da rádio são do tamanho que agente quiser. Houve alguém que um dia perguntou a Worson Wells se gostava das novelas da televisão, e ele respondeu: “prefiro a rádio, o cenário é bem mais amplo.”

Nos inícios da década de trinta, na altura em que rádio era ainda vista como um mero instrumento técnico de difusão e distribuição de sinais, o dramaturgo alemão Bartol Brecht dizia esta coisa curiosa: “Um homem que tem algo para dizer e não encontra ouvintes, está em má situação: Mas estão em pior situação ainda os ouvintes que não encontram quem tenha algo para lhes dizer. Era preciso que os ouvintes se transformassem também em emissores e que a telefonia tivesse uma função social.

A rádio montou o palco e o Daniel Medina deleitou e fez sonhar os cabo-verdianos que à hora do pequeno-almoço ouviram na telefonia, meio apressados, As crónicas que a Vida Conta. Como as palavras leva-as o vento – a escrita perpetua – agora podemos, sempre que quisermos, entregar-nos às reflexões do Daniel Medina. Pensem Nisso!

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Tributo a um AMIGO

António Gomes com a irmã em S. Tomé









António Gomes e um jornalista da RNSP

António Gomes e a jornalista São Lima da TVSP

O jornalista António Gomes faleceu no dia 01 de Janeiro de 2011. Paz à tua alma.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

A História da Radiodifusão

Os primórdios da radiodifusão em Cabo Verde remontam à década de 30 do sec. XX com as primeiras iniciativas para instalação de uma emissora no país, acompanhando a avalanche de marketing publicitando os primeiros aparelhos receptores da marca Philips. As Câmara municipais da Praia e São Vicente são as primeiras a adquirirem esses aparelhos. Em finais de 30 já era possível ouvir a Emissora Nacional, músicas e notícias do mundo através de altifalantes, instalados pela Câmara Municipal de São Vicente, na Praça Serpa Pinto. "

A historiografia oficial nasce com a criação da “Rádio Clube de Cabo Verde”, apelidada pelos populares de “Rádio Praia”. Criada pelo alvará nº2/1945, com emissões diárias entre às 18h30 e às 20 horas, e uma programação variada que incluía música nacional e estrangeira, palestras, serviços noticiosos e programas de humor. Além da parte da radiodifusão funcionou ainda como clube recreativo, onde os sócios organizavam bailes e récitas. Foram alguns dos primeiros sócios, Lino Paulino Pereira, Bento Levy, Clarence Mendes, Manuel Serra, o governador João de Figueiredo, sócio honorário e Manuel Tomaz Dias o principal impulsionador da iniciativa, tendo-se realizado a primeira assembleia nos edifício da SAGA que, curiosamente em 1954, passaria a ser a sede da Rádio Clube de Cabo Verde declarada corporação de utilidade pública pelo governo da colónia em 1950.

A partir de 1947, com inauguração da Rádio Clube do Mindelo e da “Rádio Pedro Afonso” ou posto experimental CR4AC (Junho de 1949), por iniciativa do radiotelegrafista português José Pedro Afonso, São Vicente assume as rédeas da história da radiodifusão nacional.

Em Junho de 1954, o Grémio Recreativo do Mindelo, fundado em 1938, apresentava aos sócios a aparelhagem destinada ao seu serviço de radiodifusão seguido de uma proposta de alteração dos estatutos tendo em vista essa nova faceta da radiodifusão. Um ano mais tarde, em 1955, com apoio estatal, nascia a Rádio Barlavento, emitindo diariamente em ondas curtas, das 18h30 às 19h30. Funcionando no edifício do Centro Nacional de Artesanato e antiga casa do senador Vera-Cruz, sede do Grémio

A revista Cabo Verde Boletim de Propaganda e Informação no seu nº 69, de 1 de Junho de 1955, página 21, saúda a criação da Rádio Barlavento com o seguinte texto:

“ Têm sido escutadas nesta cidade em boas condições as emissões especiais do “Rádio barlavento” do “Grémio Mindelo”. Ao iniciar os seus trabalhos, a direcção do Grémio endereçou a S. Ex.ª o Governador o seguinte telegrama:

“Tendo iniciado ontem emissões experimentais banda 50 metros Rádio Barlavento saúda efusivamente V.exa. respeitosos cumprimentos”.

Eram membros da direcção da Rádio Barlavento, Dr. Fonseca, Dr. Adriano Duarte Silva, Mendo Barbosa da Silva, Dr. Aníbal Lopes da Silva, Dr. Júlio Vera Cruz, Engenheiro Graciano Cohen, Francisco Lopes da Silva e Abel Pires Ferreira.

Inicialmente a rádio funcionava com ondas curtas, posteriormente em Frequência Modelada. As emissões começaram inicialmente com duas horas e logo foi aumentada para seis horas diárias.

As notícias, vindas da metrópole, eram fornecidas pela agência noticiosa Press Lusitana, uma agência governamental que enviava as notícias já trabalhadas. O conteúdo em código morse era decifrado pelo telegrafista Francisco Cabral. As informações vindas da Praia eram fornecidas pelo Centro de Informação e Propaganda. A nível local, amadores forneciam informações sobre entidades que visitavam a ilha. A maior parte das informações emitidas era sobre Portugal.

Na Rádio Barlavento realizaram-se as primeiras gravações realizadas no arquipélago e que vieram a ser editadas em disco. Mité Costa, a cantar mornas de Jotamonte e acompanhada por um grupo dirigido por ele próprio, foi a primeira da série de 45 rpm "Mornas de Cabo Verde", editada pela Casa do Leão. Seguiram-se Amândio Cabral - no disco com a primeira gravação da hoje célebre "Sodade" - Titina, Djosinha e outros.

A Rádio Barlavento emitiu programas de produção própria alargada onde se destacam programas como: “Miradouro”, programa cultural produzido por António Aurélio Gonçalves (Nhô Roque).“Golo” um programa desportivo de grande audiência produzido por Daniel Crato Monteiro;

“Raiz Nacional” - um programa de actualidade e cultura produzido por Dr. Aníbal Lopes da Silva; “Roupa do Pipi” de Nho Djunga - um programa de intervenção, onde se fazia a crítica social com humor e que foi um dos programas e com muita audiência, como nem todos tinham rádio em casa, autênticas multidões reunirem-se à volta do coreto da Praça Nova para a escuta deste e de outros programas; Ou “Mosaicos Mindelenses” – um programa sobre vivências da sociedade mindelense produzido por Sérgio Frusoni.

Quanto à censura, era obrigatória a entrega dos relatórios no dia a seguir à emissão de cada programa. Como havia um controlo prévio, os responsáveis pela programação faziam uma auto-censura. Por vezes, dada a baixa escolaridade dos guardas da PIDE, havia mensagens de intervenção que passavam através dos programas sem o conhecimento dos mesmos.

A Rádio Barlavento foi extinta em 9 de Dezembro 1974, data em que foi invadida e ocupada por populares, transformando-se em Rádio Voz de São Vicente; que funcionou até 1985 data em que se fundou a Rádio Nacional de Cabo Verde à qual foi anexada.

terça-feira, dezembro 07, 2010

Jornalismo & Política

Na próxima quinta-feira sentamos os jornalistas e os políticos à mesma mesa e vamos procurar analisar o relacionamento entre estes dois actores sociais, cujo contributo é inestimável para a consolidação das instituições democráticas. Pode ser que para os mais desavisados a reflexão que ora se propõe se mostra prematura, uma vez que não existe, aparentemente, nada de anormal nesta relação. Esclarece-se, desde logo, que não se procura fazer uma abordagem rotineira partindo dos dois lados da barricada em que cada um destes campos defende as suas posições de trincheira.

É sabido que o mundo dos media e o meio politico são “amantes malditos”, condenados a andar lado a lado, a influenciarem-se mutuamente, mas sempre desconfiando um do outro e nalguns casos detestando-se. O Estado deve proteger a imprensa, mas pode sentir-se tentado a proteger-se a si próprio contra ela, limitando-lhe a liberdade de acção. A imprensa, por seu turno, dispõe de um grande poder de influência sobre a vida social, pelos efeitos que repercute, às vezes até pelo seu silêncio

De uma coisa todos estão de acordo: a imprensa não pode servir de base para a acção politica, porque ambas são eternas irmãs inimigas, e isso pelas razões que se expõe.

O jornalismo na sua origem é informativo. Dá notícias, narra factos. O seu objectivo é o rigor. Idealmente conta histórias do ponto de vista de ninguém. A sua limitação porém é que vive num ciclo de 24 horas. Esgota-se na procura estonteante do agora. Vive para o acontecimento e do acontecimento. As causas e os temas sociais são-lhe estranhos. Só os acontecimentos súbitos o servem. As situações crónicas, por graves que sejam, não o podem interessar. Num relato ela destaca sempre o novo, mesmo que com isso falseie o contexto, ou sacrifique o importante. A sua âncora são os nomes, as caras. O seu motor, a competição.

Mas o pior é quando o jornalismo informativo, que já sofre destas limitações que o seu ciclo de curto prazo lhe impõe, transforma-se num jornalismo interpretativo, considerado, hoje, um grau acima na escala de respeitabilidade da profissão.

Para esses jornalistas os factos são apenas pretexto para especular sobre os jogos de poder e os interesses inconfessáveis que fontes secretas lhes revelam. O jornalismo interpretativo cultiva o cepticismo, prefere expor, por sistema, as meleitas do poder, em vez de dar notícias, prefere gerar controvérsias.

Esta moda em que o jornalista é a estrela e o político um objecto pode envenenar a fonte e ser responsável pela má imagem da política junto do cidadão. Ao não distinguir nos seus escritos e nas suas manchetes o real abuso do poder do mero acidente de percurso, esse jornalismo enfraquece o elo de confiança entre políticos e os cidadãos, que é afinal a condição essencial para a democracia.

Thomas Petterson, director do Shorenstein Center, da Universidade de Havard, acha que a relação entre a política e a informação é má, porque a informação distorce a política ao concentrar-se na dimensão “luta pelo poder”, ignorando a dimensão “governação”.

Diz ele que há pouca correspondência entre informação sobre o mundo que normalmente a imprensa nos apresenta e o mundo real em que vivem as pessoas. “A informação deixou de querer ser um espelho reflector da sociedade, para ser um espelho que a distorce e lhe agiganta as facetas”.

Entre nós, não há dúvidas de que a imprensa vai ainda atrelada aos interesses e a agenda dos políticos, embora haja já sinais de um tipo de jornalismo muito em voga nos Estados Unidos, com ramificações na Europa. Um jornalismo politico que olha para os políticos com desconfiança, cepticismo e cinismo, obliterando a responsabilidade social que deve enformar a missão da imprensa.

O debate faz-se no auditório da RTC, a partir das 17:30.