terça-feira, novembro 23, 2010

Sindicato, já!

A proposta de criação de um sindicato de jornalistas foi lançada pela direcção da AJOC há vários meses, mas parece que agora este repto se coloca com mais acutilância. Caso não é para menos, uma vez que a associação da classe se prepara para ir a votos antes do fim de ano.

Nessa altura os jornalistas cabo-verdianos serão chamados a dizer se querem ou não transformar a AJOC numa associação sindical. Convenhamos que não se trata de uma decisão fácil a avaliar pelo desinteresse que muitos jornalistas têm demonstrado quando o assunto é a união para a defesa dos direitos e interesses da classe.

Não tenhamos dúvidas, é chegado o momento. Os desafios que se colocam ao jornalismo cabo-verdiano são de monta e a lógica de funcionamento da associação mostra-se desajustada e incapaz de os enfrentar e vencer. Lembro-me de em artigos anteriores ter defendido a continuação da AJOC, enquanto associação dos jornalistas em paralelo com um sindicato que trataria dos problemas profissionais e laborais da classe. Hoje duvido que isso vá resultar.

Como já dizia Alexis de Tocqueville na sua lendária obra “Da Democracia na América" que "não existe nenhum país onde as associações sejam mais necessárias do que naquelas onde o estado social é o democrático”. Pelo mesmo diapasão alinha a União dos Jornalistas da África Ocidental que assegura que o direito sindical está (…) no centro da liberdade de imprensa.

A liberdade de informar e o direito de informar são realidades que se devem conquistar e defender permanentemente. Daí ser indispensável que os jornalistas se agrupem em associações capazes de defender estes direitos.

A questão que se nos coloca é simples: será que necessitamos de um sindicato? Da nossa parte a resposta só pode ser afirmativa, pois os interesses da nossa profissão só poderão ser defendidos pelos jornalistas activos que constituam sindicatos fortes, de maneira a que nem os empregadores, nem os políticos se apoderem do controlo dos media.

Apesar de as associações desempenharem um papel-chave na defesa profissional dos jornalistas (claro que a AJOC poderia estar a fazer muito mais…) não pode defender directamente os interesses laborais dos seus membros. Torna-se por isso imprescindível o papel dos sindicatos, sobretudo se considerarmos que é precisamente a deterioração do mercado de trabalho que mais afecta a actividade do jornalista.

Há vários e bons exemplos de sindicatos a seguir. Nalguns países europeus, os representantes sindicais têm, com frequência, ultrapassado as reivindicações puramente salariais e laborais e assumido um protagonismo destacado na defesa da liberdade e da pluralidade informativas, assim como no estabelecimento de mecanismos para promover a independência dos profissionais, como por exemplo, os estatutos de redacção.

Como forma de representar o conjunto da profissão jornalística (tenho reservas quanto a englobar todos os profissionais da comunicação no mesmo sindicato... quando muito os equiparados a jornalista, como são os casos dos correspondentes e os repórteres de imagem), será importante que o futuro sindicato seja uma organização sem perfil ideológico e de carácter exclusivamente profissional, o que significa abster-se de integrar as duas centrais sindicais, nossas conhecidas.

Para além das reivindicações salariais e laborais, igualmente fundamentais para a melhoria do jornalismo, há outras batalhas que o futuro sindicato deve perseguir. As questões próprias de uma actividade qualificada, com um protagonismo social, cultural e político que coloca problemas específicos e com um compromisso iniludível para com os valores e as normas deontológicas, constituem outras tantas prioridades.

Continua…

segunda-feira, novembro 22, 2010

O Impacto da TV nas Crianças

Antes de mais se me permitem, gostaria de felicitar a Fundação Infância Feliz por esta brilhante iniciativa… ainda ontem dizia o Presidente da Republica que falar das crianças é falar de nós mesmos.

O desafio de hoje é falar do papel da comunicação social e das novas tecnologias, enquanto instrumentos de promoção e defesa dos direitos das crianças mas também como poderosas ferramentas na construção da personalidade dos mais novos.

Infelizmente esta continua a ser uma área menor da investigação e da decisão. Não existe entre nós um debate substancial nem uma pesquisa sistemática sobre a televisão para os mais novos.

A nível mundial a televisão para as crianças tem sido estuda em diferentes ângulos e seguindo várias metodologias. Os estudos centram-se, basicamente, na análise da programação e dos programas que são emitidos, na abordagem de questões como a violência e a publicidade nos espaços para os mais novos; na reflexão e na discussão dos critérios para uma programação de qualidade; no debate sobre a desregulamentação da oferta e na identificação das vantagens e desvantagens de uma indústria televisiva global.

Ao longo dos anos 90, assistiu-se a um interesse crescente pelo estudo da televisão produzida e difundida para um público infantil. E isso devido a muitos factores, como as mudanças na paisagem televisiva; a crescente consciência internacional da importância e da influencia da televisão na vida dos mais novos; a maior visibilidade social da infância e das crianças, e finalmente o reconhecimento destas como sujeitos de direitos, sobretudo a partir da aprovação, em 1989, da Convenção sobre os Direitos da Criança.

É nesta década que começa a emergir uma nova ordem mediática. Esta nova ordem permite às pessoas espalhadas pelo mundo, ouvir sons e ver imagens de muitos e variados lugares. Porem esta situação só aparentemente envolve todas as nações.

Enquanto as crianças dos países desenvolvidos são chamadas de “geração multimédia”, dizendo-se que estão a viver uma infância electrónica, muitas crianças no mundo ainda não têm sequer acesso à televisão em suas casas. Assim, enquanto se discutem nos países desenvolvidos as pressões comerciais, a que os operadores não resistem, e o papel regulador do Estado, em muitos outros países da África, Asia e América Latina, não só os operadores televisivos trabalham em condições mais difíceis, como o Estado tem ainda por resolver algumas necessidades básicas da população, alimentação, habitação, electricidade, serviços de saúde, entre outras.

Na segunda cimeira da televisão para crianças que decorreu em Londres, em 1995, os delegados do continente africano sublinharam a importância da rádio neste continente, e realçaram a importância de um melhor financiamento para a produção de programas educativos e de programas locais, produzidos na língua materna das crianças e a necessidade de cooperação entre países da mesma região. A rádio continua a ser o principal meio de comunicação e a alcançar uma vasta audiência, no entanto emite poucos programas destinados às crianças.

A violência

Na discussão sobre a televisão para crianças, a questão da violência aparece, com frequência, como o elemento principal para avaliar se um programa é o não de qualidade, alertando-se para a falta – ou incumprimento - de legislação que regule a oferta televisiva em geral e em particular a que se destina às crianças. Porem, a avaliação da qualidade não se deve reduzir a um único critério. A ausência de violência não é o único critério para garantir que um programa é de qualidade, há outros atributos igualmente importantes na sua avaliação. Como por exemplo, a diversidade, a identidade cultural, a regulamentação da tv para crianças, etc.

No Canadá, o Instituto de Radiodifusão para crianças definiu um conjunto de critérios para classificar a qualidade na programação para a infância:

Centrada nas Crianças

  • Ser concebida e realizada em função das necessidades e interesses das crianças de diferentes faixas etárias;
  • Permitir que as crianças desempenhem um papel activo;
  • Visar o desenvolvimento integral da criança;
  • Desenvolver a inteligência, o pensamento crítico e a capacidade de reflectir da criança;
  • Apoiar-se em investigações apropriadas;
  • Estimular o imaginário e apresentar os diferentes contextos de vida das crianças;
  • Assegurar uma abertura ao mundo
  • Ser produzida e realizada com meios técnicos e financeiros adequados e de igual importância relativamente aos da programação para os adultos;
  • Ser realizada de acordo com os padrões reconhecidos das regras de arte;
  • Dar espaço aos grupos menos favorecidos.

segunda-feira, novembro 15, 2010

O Melhor da Imprensa Cabo-Verdiana

A história da imprensa cabo-verdiana começa a 24 de Agosto de 1842 com a publicação do primeiro número do Boletim oficial do Governo geral de Cabo Verde, impresso na vila de Sal Rei, Boa Vista. Apesar do atraso de 7 anos em relação ao decreto de 07 de Dezembro de 1836 que o criava. Cabo verde consegue ser a primeira colónia portuguesa em Africa a publicar um boletim oficial.

Trinta e cinco anos depois, aparecia o primeiro jornal nacional– o“independente”- dado á estampa a 1 de Outubro de 1877, com periodicidade semanal, lançado por um grupo de indivíduos que em 1880 lançaria o Echo de Cabo Verde. Os primeiros jornais nacionais, surgidos entre 1877 e 1889, nasceram na cidade da Praia e foram eles: o independente (1877–1879), Correio de Cabo verde(1879), Echo de Cabo Verde, Imprensa (1880-1881), Cidade da Praia (1881), A Justiça (1881), O Protesto (1883), O povo praiense(1886), O Praiense (188) e Praia (1889). Uma proliferação de jornais que se pode explicar pela aproximação do centro do poder e pela existência de uma tipografia pertencente ao grupo fundador do Independente. A década de 90, para além da viragem histórica, marcada pelo ultimatum inglês e pela expansão do ideário republicano que atinge a classe intelectual e por acréscimo a imprensa, marca também deslocação geográfica no centro da actividade jornalística. A zona de Barlavento comanda a produção com o surgimento do Almanach Luso-Africano (1895/98) e o Revista de Cabo Verde, fundada em Mindelo por Luís Loff em Janeiro de 1899, tendo Eugénio Tavares como principal colaborador.

Nos anos seguintes, marcados pela fome que assolou o arquipélago, com expoente em 1902-1903, Mindelo detém a primazia com os Jornais “A Liberdade” (março1902 – Abril 1903) dirigida por Aurélio e Tomaz Martins, “Salve”(1902) e “A Opinião” (1902-03) sob direcção e edição de Luís Loff, “O Espectro”(Fev.1904).

Em São Nicolau circulava em 1901 “A Esperança” sob direcção do cónego Teixeira. Santiago retoma a dianteira, apenas por um dia, para publicar a 21 de Setembro de 1907 o “Cabo Verde” número comemorativo da visita do príncipe real Luís.filipe, tendo Augusto Miranda como director e editor.

Com a implantação da república assiste-se á uma proliferação sem antecedentes de títulos, a maioria de curta duração, dos quais se destacam A voz de Cabo Verde, fundado na Praia por Abílio Macedo do qual Eugénio Tavares foi colaborador (1911-19), o independente (Praia, 1912-13); O Progresso (Praia, 1912-13), O Mindelense (Mindelo, 1913); O Futuro de Cabo Verde (Praia, 1913-16); A Defesa (Fogo, 1913-15); O Popular (Mindelo,1914-18); O Caboverdeano, (Praia, 1918-19); A Seiva (Praia, 1920); Cabo Verde (Mindelo, 1920); A Acção (Praia, 1921-22); A Verdade (Praia, 1922); O Manduco, de Pedro Cardoso (Fogo,1 de Agosto 1923-24).

A década de 30 é marcada pelo jornal de maior longevidade na história da imprensa caboverdeana, o Notícias de Cabo Verde. Fundado por Leça Ribeiro, na cidade do Mindelo, começou a circular a 22 de Março de 1931 e editou o último número a 28 de Agosto de 1962. Caso ímpar e, um recorde então. Do mesmo período destacam-se ainda as publicações “O Eco de Cabo Verde”(Praia, 1933-35); Ressurgimento (Santo Antão,1933-35); Orvalho (SantoAntão, 1936-37); as revistas “Claridade”(Mindelo, 1936-60), Certeza (Mindelo, 1944) e Cabo Verde - Boletim de propaganda e informação publicado entre Outubro de 1949 e Junho de 64, dirigido por Bento Levy onde todos os intelectuais da época deram corpo e onde se estreiaram os mais novos como foi o caso de Amílcar Cabral logo no primeiro numero com o texto “algumas considerações acerca das chuvas e até uma tentativa frustrada de se criar na Praia o Diário de Cabo Verde que ficou pelo número espécime de 8 de Março de 1956; acresce-se o Boletim dos alunos do Liceu Gil Eanes de Março de 1959, e jornal o Arquipélago ( publicado de Agosto de 62 a Junho de 74) que marcam uma época efervescente em termos de produção jornalística que antecede á independência nacional, Os jornais Mais Além dos estudantes do Liceu Adriano Moreira, e a Voz paroquial, ambos em 1967.

Destacamos nos jornais do período de transição “Alerta” dirigido por David Hopffer Almada, cuja publicação se iniciou a 27 de Junho de 74, uma semana após o fim do Arquipélago que fora o órgão oficial do regime colonial e que teve apenas 1 mês de vida; o novo jornal de Cabo Verde publicado entre 1 de Agosto de 1974 e 4 de Julho de 1975 antecedendo ao Voz di povo.



sexta-feira, novembro 12, 2010

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Nos últimos dias têm vindo a público algumas reacções menos positivas em relação a recentes decisões da direcção da Rádio de Cabo Verde no âmbito da alteração da grelha de programas, em vigor desde o dia 4 de Outubro.

Pela leitura dos comentários publicados na Internet e no programa “Clube da Meia-Noite” – cujos ouvintes foram oportunamente esclarecidos – conclui-se que parte substantiva das críticas resulta de uma campanha de desinformação intencional. No entanto, ciente de que é indispensável apostar no reforço da participação dos cidadãos no funcionamento do serviço público, a direcção da Rádio de Cabo Verde, no estrito respeito do princípio do escrutínio a que estão sujeitos os meios de comunicação social, esclarece o seguinte:

O programa “Quando o Telefone Toca” foi suspenso temporariamente da grelha até que se criem as condições para a sua transmissão em directo. A progressiva aplicação das novas tecnologias à rádio redundou em novas modalidades participativas, o que se traduziu numa maior interactividade entre o meio e os ouvintes. O que a direcção pretende é justamente estimular a interactividade, apostando em formas e suportes mais expeditos que reforcem a participação dos ouvintes nos programas da rádio.

No momento em que se aposta na inovação tecnológica e na criatividade, não se justifica que esse espaço de entretenimento continue a ser gravado. Volvidos mais de 30 anos sobre a criação do “Quando o Telefone Toca” (QTT), não faz sentido algum que para ouvir a música da sua preferência no domingo às 10 horas o ouvinte tenha que telefonar no sábado de manhã. É evidente que a transição do analógico para o digital é um processo moroso que requer recursos materiais e financeiros, mas o salto qualitativo tem que ser empreendido sem titubeio, pois o futuro da rádio é o digital.

A inovação, a criatividade e a qualidade são bandeiras que o operador público de radiodifusão deve defender, ou não fosse ele uma referência (pelo menos deve sê-lo) para os privados. Como entender que haja espaços de entretenimento na programação da própria RCV, do tipo discos pedidos, em que o ouvinte ouve na hora a música da sua preferência, uma prática, aliás, generalizada na paisagem radiofónica cabo-verdiana, e sermos forçados a continuar a transmitir o QTT “em diferido”.

Quem gere os conteúdos de uma estação de rádio sabe que pela sua natureza efémera, volúvel, etérea, sensorial, ela é o meio que mais influencia a mensagem. Daí a procura constante, por parte dos programadores, da inovação, da criatividade e da qualidade, sob pena de se cair na rotina, a principal inimiga da rádio. Sendo o QTT, como asseveram alguns ouvintes, um património da rádio, deve ser preservado, conservado, restaurado sempre que se justificar, para que não desapareça, jamais!

A direcção da RCV regozija-se com o amplo movimento cívico de apoio ao “Quando o Telefone Toca”, uma atitude que só demonstra o carinho e a preferência dos ouvintes pela rádio pública. Aliás, a iniciativa de recriar o programa na internet só prova que a modernização tecnológica é a solução e alternativa ao mais velhinho programa da rádio. No facebook, dizem os promotores da iniciativa, o QTT é todos os dias e o “ouvinte” tem a sua música na hora… escusa de esperar um dia para ouvir aquela canção da sua preferência. Às razões aduzidas acresce o facto de nos últimos tempos o QTT se ter transformado num espaço de divulgação de mensagens publicitárias, numa clara deriva ao seu princípio de utilidade pública na promoção e sensibilização em tornos de causas e valores. A mercantilização do programa transforma os jornalistas em agentes publicitários, violando assim o seu estatuto.

À guisa de conclusão, refira-se que a direcção da RCV apresentou há menos de duas semanas na cidade do Mindelo um projecto da RTC, orçado em cerca 18 mil contos, que tem como principal objectivo a modernização tecnológica da Rádio de Cabo Verde. A Radio Assist da NETIA irá permitir a integração dos processos de produção, gestão e difusão dos conteúdos em formato digital. Mas mais: o sistema permite aceder a elementos sonoros constantes dos arquivos tanto na sede como na delegação de S. Vicente, podendo ser utilizados na produção de programas. É nesta lógica que se enquadra o programa “Quando o Telefone Toca” que, tão logo seja possível, regressará ao convívio dos ouvintes.

Em relação ao programa Palavras Cruzadas, a direcção estranha todo o alarido à volta da sua retirada da grelha, porquanto as explicações constam do relatório do Conselho de Programas, órgão consultivo da direcção, e são do conhecimento do coordenador desse espaço de antena. Desde logo se avisa que qualquer tentativa de colocar o director da estação contra cidadãos que emprestaram, durante meses, a sua colaboração prestimosa com análises e comentários sagazes e pertinentes em relação a temas de interesse nacional, cairá em saco roto. Igualmente desprovida de qualquer sentido é a tentativa de acusar a RCV de estar a silenciar S. Vicente.

A delegação do Mindelo detêm na actual grelha a coordenação directa (realização, produção e difusão) de 11 programas, podendo, como de resto acontece com qualquer outro centro de produção, incluir nos blocos de emissão conteúdos (grandes reportagens, entrevistas, debates, etc.) de interesse local, regional ou nacional. Para além dos programas, os estúdios do Mindelo coordenam diariamente a edição do principal espaço noticioso da RCV: o Magazine 13-14 informação. Ainda, seguindo o modelo de rotatividade, os estúdios do Mindelo apresentam os programas Palco RCV, Tarde Musical, Tarde Desportiva e a edição informativa do fim-de-semana. Também, como as demais estruturas, dispõem de dois espaços regionais, às 12 e às 18 horas.

Longe vai o tempo em que os programas, uma vez inseridos na grelha, ganhavam lugar cativo, só saindo do ar mediante vontade expressa do seu autor ou do jornalista incumbido de os realizar e apresentar. Hoje, pese embora não existirem muitos dados científicos de apuramento do nível de interesse e das expectativas dos ouvintes, a direcção baseia a avaliação da produção através de vários critérios profissionais objectivos, de entre os quais se destacam a pertinência, a criatividade, a precisão, etc. que enformam a cultura radiofónica.

No caso do programa Palavras Cruzadas, a decisão legítima da direcção remonta na verdade a Julho deste ano, altura em que o formato não integrou a grelha de verão, ao contrário do Quarta à Noite, Discurso Directo e Espaço Público. Ora, existindo já na grelha um programa semanal de comentários/análises de temas de relevância social, política e económica, de interesse dos cabo-verdianos, contando com a colaboração dos representantes dos três partidos com assento parlamentar, para quê replicar o modelo em S. Vicente? Atenção: que não se confunda o formato com o conteúdo, consubstanciado aliás na excelência das opiniões e comentários expendidos, tanto pelas personalidades que passaram pelo programa, como pelos próprios ouvintes.

Temos por várias vezes defendido a necessidade de se adoptar mecanismos legais e outros que reforcem o poder e a participação dos ouvintes na formatação e funcionamento do serviço público de radiodifusão. Isso passará, nomeadamente, pela criação da figura do provedor do ouvinte, da associação dos ouvintes e do conselho de opinião. Por acreditarmos que não existe serviço público sem público, continuaremos receptivos às queixas, críticas, mas também às propostas de melhoramento da grelha por parte dos ouvintes...

Nota final: Em relação ao programa Discurso Directo citado como malha desta enorme “cortina de silêncio” urdida pela direcção da RCV para calar S. Vicente e a região circundante, impõe-se o seguinte esclarecimento:

O programa das Grandes Entrevistas – o Discurso Directo – nasceu de uma proposta do jornalista Júlio Vera Cruz Martins nos idos de 1998. Tendo sido chamado para desempenhar as funções de chefe de informação da RCV, o programa passou a ser coordenado pelo jornalista Orlando Lima, primeiro na Praia, e depois em S. Vicente, para onde se deslocou em 2008 para ocupar o cargo de delegado da RTC. Por uma questão de estratégia informativa, visando, sobretudo, realinhar o programa com a sua filosofia e esqueleto iniciais, a direcção, depois de ter feito a avaliação do Discurso Directo, (que nos últimos tempos vinha se afastando do seu formato inicial), transferiu a sua coordenação para a sede. As poucas edições já realizadas parecem dar razão à decisão tomada.
Texto da direcção da RCV publicado no Portal da RTC

Leituras Interessadas

A margem de erro estatístico das sondagens é conhecida, a qual se junta uma percentagem de erro acrescentado pela leitura apressada e rotineira dos dados. As pesquisas lêem-se mal e muitas vezes os órgãos de comunicação social transmitem uma realidade que nelas não é detectada. Não se pode contudo generalizar.

Na maioria dos casos introduzem-se incorrecções ou desvios informativos involuntários que mediatizam a leitura dos estudos de opinião. Estes são alguns dos erros mais comuns: a informação eleitoral relativa às sondagens, e em especial as manchetes redigem-se de forma incorrecta. Independentemente de que acertem ou não nos resultados, as manchetes sobre o futuro eleitoral estão por si equivocadas.

É corrente encontrar na primeira página de um qualquer jornal: “O partido X ganhará as eleições” ou “o partido y não alcançará a maioria absoluta”. Da leitura de uma sondagem não se podem tirar conclusões futuras. Quando muito, indicam tendências.

A leitura atenta da ficha técnica das sondagens permite ver como na maioria dos casos da amostra obriga a tomar certas precauções, que se omitem na redacção da informação. Se a amostra é recente, costuma ser excessivamente pequena para atribuir assento, ou, pelo contrário, se é suficientemente ampla, já passaram vários dias desde a sua realização.

Em períodos eleitorais, quando a opinião pública está em autêntica ebulição, uma semana é demasiado tempo para actualizar a publicação de uma sondagem com o título: “O partido x tem 10 pontos de vantagem sobre o partido Y”, ou, “Se as eleições fossem hoje o Partido Y alcançava…” No melhor dos casos, essa poderia chegar a ser a situação política uma semana antes da publicação da notícia.

Em outras ocasiões, as manchetes, ou a notícia, obtêm-se de perguntas que medem o clima de opinião e não a intenção de voto: “que partido ganhará as eleições?” Outras vezes, esquece-se da existência, ou a análise, de importantes grupos de indecisos. Convém por isso rever algumas práticas do jornalismo de precisão antes de se aventurar numa caça às bruxas demoscópicas.

Outro erro frequente corresponde ao tratamento informativo dos resultados obtidos nas sondagens realizadas à porta das assembleias de voto, que costumam ser tomados como dados definitivos. As rádios e as televisões, em feroz competição, apressam-se, às oito da noite, a dar os assentos que cada força politica obtém. As sondagens realizadas na porta da assembleia de voto não medem os resultados eleitorais, mas o clima de opinião em que os comícios se desenvolveram. É sim um indicativo do resultado final das simpatias dos votantes.

Neste sentido, convém recordar o conceito de simpatizante esposado por Maurice Duverger. “A figura política do simpatizante é vaga e complexa. O simpatizante é mais que um eleitor e menos do que um membro. Como eleitor dá ao partido o seu voto, mas não se limita a isso. Manifesta o seu acordo com o partido; reconhece a sua preferência política. O eleitor vota em segredo na sua cabine de voto e não revela a sua escolha; a precisão da mesma e a amplitude das medidas tomadas para garantir a descrição do escrutínio mostram a importância do facto. Um eleitor que declara o seu voto não é um simples eleitor: começa a converter-se em simpatizante” (Duverger, 1957,145).

Por assim dizer, as sondagens que se realizam à boca das urnas não fazem senão exigir ao entrevistado que converta o seu voto secreto em público, que passe de eleitor a simpatizante.

Fonte: Jornalismo e Actos da Democracia, 2007, edições MinervaCoimbra.

segunda-feira, setembro 20, 2010

MACROSONDAGENS

As limitações técnicas das sondagens podem-se conhecer com uma leitura atenta e minuciosa da ficha técnica que acompanha a imensa maioria dos estudos sociológicos. A ficha técnica de uma sondagem permite-nos conhecer os dados mais importantes na hora de avaliar um estudo. Ou seja, podemos saber à primeira vista se os dados são próprios de uma micro ou de uma macrosondagem

Para ajuizar e interpretar rapidamente a qualidade e o significado técnico das sondagens, passíveis de converter em notícia, existe uma série de princípios básicos que a redacção do órgão deve ter em linha de conta.

Desde logo, toda a sondagem é por definição uma amostra de uma população. A representatividade frente ao conjunto total, mesmo que partindo de uma selecção bastante rigorosa dos entrevistados, tem sempre limites. Não existe a sondagem perfeita que possa assegurar a cem por cento a coincidência do que foi medido na amostra e o existente no total da população. A margem de erro e o coeficiente de probabilidade, bem como o nível de confiança, são indicadores imprescindíveis para medir o limite da representatividade da amostra.

Um outro aspecto a ter em consideração prende-se com a variação de âmbitos sobre os quais se realizou o inquérito ou a sondagem, infelizmente uma prática habitual. Ora, aplicar os resultados de uma sondagem a outros âmbitos exige, quando muito, uma amostra do tamanho adequado. Por exemplo quando se atribuem assentos a nível local com amostras a nível nacional.

Por outro lado, os paradoxos e circunstâncias curiosas que se produzem nas respostas de um mesmo questionário exigem um critério jornalístico consciente de que em muitos casos esses dados são pura coincidência.

Além dos anteriores, o critério fundamental é a observação crítica de todos os elementos que habitualmente uma ficha técnica deve ter: título do estudo, o seu objectivo, universo sobre o qual foi realizado, âmbito do trabalho de campo, data em que foi realizado, variação populacional, erro da amostra, nível de confiança, tipos de amostras e questionários utilizados, métodos de selecção dos entrevistados e forma de obter os dados. Todos estes elementos constituem informação de máximo interesse para o jornalista.

Desta forma o informador pode observar a pertinência dos dados e das inferências realizadas, avaliar as conclusões alcançadas ou realizar análises pertinentes e tecnicamente válidas, do ponto de vista informativo da sondagem. Por isso, vale a pena recordar a reflexão de Robert L. Stevenson (1993, 97): “as sondagem de opinião formam parte fundamental e iniludível da informação actual, exigem uma formação matemática e estatística dos jornalistas. O uso das sondagens eleitorais constitui um bom exemplo para uma adequada formação universitária para a prática do jornalismo de precisão”.

sábado, setembro 18, 2010

FIABILIDADE DAS SONDAGENS

A recente sondagem realizada pela empresa Afrosondagem continua a suscitar amplas reacções, as mais díspares, sobretudo, dos actores políticos e dos observadores da política doméstica, o que também nos serve de pretexto para continuar, do ponto de vista teórico, a analisar este importante instrumento científico.

Um dado que perpassa as análises dos resultados que têm sido produzidas prende-se, não tanto com a desvalorização das sondagens, mas com a interpretação que elas se faz, a modos de são o que são e que apenas representam a fotografia do momento, embora ninguém ignore o que predizem.

Na verdade, a fiabilidade das sondagens tem sido questionada ao longo da década de 90, em virtude de os resultados previstos não terem coincidido com os votos validamente expressos nos pleitos eleitorais. Por outro lado, é sabido que em certas ocasiões as pesquisas são utilizadas politicamente como medida de pressão sobre a opinião pública ou como argumentação técnica na hora de defender determinados interesses. Igualmente, há casos em que chegam a ser produzidas filtragens, inclusive das manchetes dos jornais, como se fossem pesquisas rigorosas.

O pior é que o jornalismo de precisão não sai incólume dessas montagens. Como explica o professor Minguel Tuñes (1999, 49), a filtragem precisa de uma conhecimento mútuo entre o meio de comunicação e a fonte com o compromisso de verificar a veracidade da informação prestada pela fonte e manter, em qualquer caso, o seu anonimato, tudo travestido de jornalismo de investigação. Há casos ainda em que se ocultam os resultados de uma sondagem realizada na maior parte das vezes por razões de suposta oportunidade política.

É evidente que quando as sondagens falham, abundam as explicações para os desaires, quer por parte daqueles que estão directamente interessados nos resultados, como pelo lado dos especialistas e dos responsáveis das empresas e instituições de prospecção social.

Os argumentos são vários: são uma medição que ocorre no momento da colheita da informação o que, com as técnicas que existem, têm de constar dentro de uma margem de erro. Convém recordar que o tempo pode variar a intenção de voto e que a margem de erro, quando a amostra não é suficientemente grande, é maior que o número de votos necessários para conseguir os últimos assentos. Esta limitação é também assinalada por Francisco Llera, catedrático em Ciência Politica: “A fiabilidade é maior, se se oferecerem percentagens referidas ao conjunto da amostra e menor se assinalarmos uma projecção de assento”.

Uma coisa parece certa: as sondagens eleitorais são mais fiáveis na medida em que os cidadãos têm as suas opiniões mais bem definidas. Elas medem as tendências e não realidades objectivas e as tendências fazem-se para o momento em que se realiza a sondagem. A aparição de novas condições pode fazer com que a parte dos indecisos reformulem os resultados das pesquisas. José Ignácio Wert é mais peremptório: “as sondagens eleitorais costumam aproximar-se, com bastante precisão, dos resultados reais.

Ainda sobre a credibilidade das sondagens, importa sublinhar que existem muitos factores que influenciam os dados, pois a tarefa de reproduzir em miniatura as características de uma comunidade é árdua. Assim, pode ocorrer que as avaliações positivas registadas numa sondagem estejam mais representadas por causa do seu maior grau de aceitação que outras posturas, pois os que opinam de forma mais crítica também estão menos dispostos a responder. De qualquer forma, quase todas as análises sobre a credibilidade das sondagens parecem convergir para um ponto: elas, as sondagens, não podem ser vistas como um artigo de fé. Além do mais, às vezes são imprecisas, porém, ajudam, como poucas coisas, a descrever e a analisar uma realidade social.

Na hora de analisar as limitações das sondagens, torna-se importante ter em conta os factores já enumerados, entre os quais não se pode olvidar o papel fundamental da profissão de jornalista na hora da leitura, interpretação e transmissão dos resultados. Isso será tema para um próximo artigo.

… continua.