terça-feira, setembro 15, 2009

E tudo a chuva levou...

Elisângelo Ramos
O Festival de Música, este fim-de-semana, na Praia de Santa Maria, no Sal. Consequência da chuva que Sábado e Domingo bateu sobre o País. A suspensão do certame põe, entretanto, a nu as fragilidades da produção cultural no País. Apupada pelos festeiros - desiludidos - a Organização - também triste - pediu desculpas e deu vivas a chuva. A este propósito publicamos o comentário do Jornalista Elisângelo Ramos, emitido esta segunda-feira, 14 de Setembro de 2009, no Pulsar Cultural da RCV.

A queda do Festival deveu-se a necessidade de garantir a segurança – de pessoas e bens. Por esta razão se procurou justificar a suspensão do evento. Uma justificação, diga-se, subjectiva. A única culpada pelo episódio seria a chuva que felizmente do alto do céu não tinha acesso ao microfone para se defender.

Os factos: após se ter reunido com artistas, técnicos de som, palco e iluminação a Organização decidiu pela suspensão do certame. A comunicação da decisão ao público no areal de Santa Maria, para quem ouvia a RCV, era algo indesejado para Jorge Figueiredo. Para um político é sempre difícil ser portador de más notícias.

A seu aparente favor tinha a chuva. A Empresa responsável pela sonorização dos espectáculos contava já alguns equipamentos danificados e apontava outros em estado de observação.

Embora seja legitimo julgar que esses equipamentos devam estar cobertos por algum seguro é de se compreender as razões que levaram o responsável pelo sistema de som a optar pelo seguro. Tanto mais que recordou: água e electricidade nunca fizeram casamento. Nada podia ser feito aquela hora – tudo era para ser feito antes, muito antes. E é aqui que as justificações para tanto investimento sem retorno (antes pelo contrário Santa Maria terá que reconquistar a credibilidade perdida) não colhem do ponto de vista da produção cultural.

O ocorrido vem abrir – caso haja gente aberta a fazê-lo – dizíamos, vem lançar o debate sobre em que condições logísticas são realizados os festivais de música em Cabo Verde.

É sabido - é tradição: festivais de música no País quanto mais sobre a boca do mar – melhor, e todos os festivais por cá realizados em época das chuvas – têm sido autênticos desafios a força da natureza e da resistência humana, cientifica e tecnológica.

O programador e planeador de qualquer evento deve ter sempre como primeira abordagem de trabalho uma equação transversal que não se resume ao espectáculo em si mas que concorrem para o sucesso ou desastre do mesmo.
Os poderes instituídos sempre podem dizer que em Cabo Verde inexistem espaços para eventos semelhantes. Real e tristemente não existem. Apontar no País um espaço cultural que garanta, pelo menos, a resposta às múltiplas exigências; de segurança, acústica, alimentação, saneamento, protecção ambiental e mesmo de transporte.

Todas as instituições que são chamadas – as vezes tardiamente – na realização deste ou daquele festival – são quase sempre contactadas em cima dos joelhos. Um trabalho que face a ausência de espaços paridos para esse tipo de evento acaba por ser defeituoso para todos.
O trabalho de improviso e/ou as pressas impera, em detrimento da programação e do planeamento.

Daí que os prejuízos económicos e financeiros resultantes do episódio deste fim-de-semana na Ilha do Sal sejam assacados aos promotores do evento. Não se pode culpar a natureza pela ausência de um acto humano. A atitude e decisão do planeamento, calendarização, logística e programação do Festival foram obra humana. O Homem erra. Mas convenhamos que os prejuízos poderiam ser evitados caso as condições logísticas fossem encaradas como rubricas fundamentais no desenho e na orçamentação do Festival.

É que nem sempre - e desta vez ficou provado – nem sempre é o artista o dono do espectáculo. O planeamento combinando a natureza e a criação humana bem poderia ser uma resposta eficaz as eventualidades climatéricas.

Mais: os acontecimentos de Santa Maria interpelam os poderes políticos para a necessidade de se dotar o País de infra-estruturas culturais para a realização dos Festivais de Música; combinando os interesses financeiros, ambientais e culturais. Em resumo: a tão propalada indústria cultural não se compadece com uma agenda de adiamentos sucessivos.

Nunca se saberá quanto o País perde com a suspensão do Festival, assim como nunca há de se saber porque motivo muitos apuparam a Organização do Festival que mesmo não tendo total responsabilidade pelo facto não deixa de ser a principal visada.

Cabo Verde tem excelentes produtores e agentes culturais capazes de assegurar os caprichos do céu. Portanto vir dizer que a chuva estragou tudo é desculpa que não colhe, por ser o Festival de Santa Maria um evento de teor profissional e longe do amadorismo de outros tempos. O trabalho de casa começa exactamente na proposta de orçamento municipal e na aplicação da política cultural autárquica, e do Governo que sabe também da sua quota-parte de responsabilidade; não fosse a segurança em toda a sua plenitude, também, uma função do Estado.

Os Festivais de Música em Cabo Verde são – hoje – um elemento de promoção cultural que ultrapassa de longe os limites do entretenimento e de lazer. Mais do que dar música ao vivo nas praias de Cabo Verde são provadamente uma importante fonte de receita ao bolso público e de milhares de cidadãos; de muitas famílias que apenas vivem desse expediente. Depois de meses de trabalho e milhares de contos investidos o Festival de Santa Maria morreu na Praia. Resta saber se o contribuinte será, uma vez mais, chamado a pagar o prejuízo.

terça-feira, agosto 18, 2009

Sobre o mau uso da língua portuguesa entre nós, e não só

Não pretendemos com este artigo trazer ensinamentos da língua portuguesa a ninguém, nem tão pouco meter foice em seara alheia, pois existe gente com qualidade, formação e em quantidade suficiente para o fazer.

Porém, constata-se que ela tem sido tão maltratada, e a sua utilização, seja na modalidade escrita ou falada, tem sido recheada de erros tais e tantos, que de tão repetidos, levam-nos a, não raras vezes, pensar se somos nós que desaprendemos ou se houve inovações que ignoramos.
Dantes, em grupo reduzido de amigos, ora de forma fortuita, ora provocada, reuníamo-nos e em encontros informais, trocávamos ideias sobre a problemática.

Da nossa parte, depois de tanto ver e ouvir, optámos por nos distanciar da questão e conseguimo-lo, embora parcialmente. Entretanto, a situação ganhou tamanha dimensão, o que nos levou a quebrar o nosso silêncio para chamar a atenção de quem de direito, para que a situação não se agudize mais, especialmente agora que a língua cabo-verdiana está num processo de oficialização, que esperamos seja para breve.

O português continua a ser a língua oficial do país e, como tal, deve ser tratada com mais respeito, até porque, em nosso modesto entender, com os faladores do português que existem e proliferam entre nós, vemos poucos dotados das condições mínimas para o ensino da língua crioula.

Repare-se que de entre o vasto leque de professores que enformam a classe docente, não muitos conseguem construir uma frase em português, curta que seja, sem erros. Diga-se, em abono da verdade, que também os há que o fazem tão bem, que até fazem inveja a muitos, especialistas na matéria e que exclusivamente a isso se dedicam no seu país, que se proclama, e com razão, como berço da língua em apreço. A excepção só vem confirmar a regra.

Não pretendemos ultrapassar com essas reflexões as fronteiras deste país, para não contrariar o que no início dissemos (não meter a foice em seara alheia), mas não resistimos à tentação de citar alguns exemplos de erros que frequentemente nos chegam, através dos meios de comunicação social, seja do pais “berço”, seja do nosso.

Vejamos alguns:

Eles hadem vir, quando devia ser eles hão-de vir (este mais lá do que cá)
Os meus alunos obteram boas notas nos exames, em vez de obtiveram…….
Ele foi um dos que se esforçou ao invés de ele foi um dos se esforçaram.
Pedro interviu intensamente nas discussões, quando devia ser interveio intensamente
Enfim, haveria múltiplos exemplos desses que poderiam engordar essa lista, mas não é esse o nosso objectivo e não cabe no âmbito deste artigo.

A sua verdadeira razão (do artigo) prende-se com parte do noticiário que na TCV ouvimos e vimos ontem (dia 12) durante o qual convivemos com o à vontade com alguns responsáveis nos brindaram com determinados e graves erros, atropelando impiedosamente a língua que Camões e vários outros, incluindo não poucos cabo-verdianos, tão bem souberam glorificar. Iremos tentar reproduzir dois desses momentos, pecando talvez pela não precisão das frases proferidas (não foram gravadas), mas não no essencial, que constitui a causa deste apontamento.

Disse-se:

1) O festival teve a aderência de grande parte….. O festival não pode ter aderência, mas sim adesão.
2) Os objectivos traçados pelo Partido X, no âmbito da juventude, vão de encontro ao plano traçado pela organização que dirijo.….. Ir de encontro significa embater, chocar, portanto discordância. O político em causa com certeza que quereria dizer: os objectivos…. vão ao encontro de, que significa coincidem com.

Infelizmente erros destes ouvem-se por todo o lado e a toda a hora, mas preocupa-nos mais, quando na classe política, por exemplo, um Deputado (o que acontece com frequência) diz que ele está ali para defender interesses que vão de encontro às pretensões daqueles que o elegeram, ou então quando um Advogado em defesa de um cliente e argumentando em pleno Tribunal, diz que a dissertação da acusação foi ao encontro da dele e portanto das acusações de que o seu cliente é objecto. Obviamente que uma boa interpretação da afirmação da defesa confundiria qualquer Juiz.

Cuidemos mais e melhor da língua que, embora não seja a nossa, é a que temos por oficial. Se se proporcionar numa próxima oportunidade voltaremos ao assunto.

Óscar Ribeiro
Fonte: asemanaonline

segunda-feira, agosto 10, 2009

Raposas da Rádio


Adorei ter ouvido anteontem uma entrevista, aliás, para ser mais rigoroso uma conversa entre o Carlos Lima e o Fernando Carrilho. Sem dúvida, duas referências incontornáveis do panorama radiofónico cabo-verdiano. O pretexto do “Conversas ao Café” era mergulhar na poeira do tempo e trazer à tona as diversas facetas da vida do homem e jornalista Fernando Carrilho.

No entanto, ao invés de uma mera uma sessão de perguntas e respostas, assistimos a um contar de “estórias” de um percurso praticamente comum. Carlos Lima, contemporâneo do Carrilho na rádio – os dois terão começado a carreira quase na mesma altura, embora o Lima, salvo erro, ter-se-á estreado ligeiramente mais cedo na Rádio Clube do Mindelo – não se coibiu de partilhar também com os ouvintes algumas etapas da sua carreira de quase 40 anos.

Um excelente momento de rádio, como há muito não se ouvia. O Carrilho, não obstante ter-se retirado das lides da rádio, por motivos de saúde (esperamos não por muito tempo, pois o bichinho da rádio não se conforma com afastamentos tão prolongados e ainda para mais de forma abrupta, como foi o caso), continua um excelente comunicador, um radialista na verdadeira acepção da palavra, um exímio contador de “estórias”. E hoje a rádio pertence àqueles que sabem fazer rir e emocionar os públicos. É espantosa a forma como Carrilho conta “pirraças” no seu português, ora arrevesado, ora misturando com bom gosto algumas expressões em crioulo.

Como não podia deixar de ser, a conversa se deteve durante alguns minutos sobre a façanha da tomada da Rádio Barlavento. Quanto mais se conta este episódio que marca de forma indelével a história recente da radiodifusão e de Cabo Verde, mais me parece pertinente uma investigação (académica ou jornalística) que faça luz sobre assunto. Penso que volvidos quase 35 anos desse acontecimento, é tempo de conhecermos um pouco mais, não apenas o assalto à rádio (um rádio privada, lembre-se) mas os motivos, os actores, os mandantes, e as consequências, politicas e sociais, que isso terá tido no processo de independência de Cabo Verde e, quiçá o mais importante, até que ponto esse acto revolucionário terá condicionado a evolução da paisagem radiofónica em Cabo Verde.

Se se aponta como o principal motivo para o assalto à Rádio Barlavento a sua atitude colaboracionista com o regime colonial, isso tem que ser demonstrado com recurso a casos concretos, quer através da análise da oferta em termos dos conteúdos (a grelha de programas), como da estratégia e linha editorial da Rádio Barlavento.

Pergunta-se: a tomada da Rádio Barlavento era mesmo inevitável para o processo de formatação de consciências, visando granjear o apoio incondicional ao PAIGC e do processo de reconstrução nacional, ou esse trabalho ideológico poderia fazer-se utilizando uma outra rádio expressamente criada para o efeito, replicando, aliás, a experiência da Rádio Libertação?

Continuo a defender que ainda não se analisaram de forma aturada as consequências da tomada da Rádio Barlavento, trabalho imprescindível se quisermos entender o estádio de desenvolvimento da radiodifusão em Cabo Verde. Acredito que, caso a RB não tivesse sido nacionalizada, neste momento Cabo Verde teria uma oferta radiofónica muito mais rica e diversificada, fruto de uma concorrência que é hoje francamente incipiente, para não dizer inexistente.

S. Vicente teria a sua voz autónoma que lhe foi cerceada. Em vez de janelas na programação da Rádio Nacional – solução encontrada para o espelho das realidades regionais – S. Vicente teria uma rádio à altura da ambição, das expectativas das suas gentes, da sua idiossincrasia e multiculturalidade. Isso, se prejuízo de uma Rádio Nacional de serviço público que aposte na universalidade, na promoção da cultura e identidade nacionais e da coesão social.








terça-feira, agosto 04, 2009

Carlos Santos de volta à direcção da RCV


De acordo com o administrador da RTC, Álvaro Ludjero Andrade, a nova direcção da rádio vai ter a missão de relançar a estação...

Praia, 03 Julho - O jornalista Carlos Santos acaba de ser nomeado Director da Rádio de Cabo Verde (RCV), cargo que volta ocupar um ano depois de se ter demitido.
Esta informação foi avançada ao início da tarde de hoje pela estação de rádio estatal e, ao que parece, sem rupturas com Paulo Lima, o director cessante.

De acordo com o administrador da RTC, Álvaro Ludjero Andrade, a nova direcção da rádio vai ter a missão de relançar a estação e continuar a liderar as audiências em Cabo Verde.
“É uma equipa, na qual apostamos muito. Já definimos as orientações a ter nos próximos tempos. A rádio está numa fase do seu relançamento e vamos avançar com novos padrões, tornar a RCV uma rádio actual, que continue a liderar”, espera Ludjero Andrade.

Sobre a substituição da direcção liderada por Paulo Lima, por esta de Carlos Santos, o administrador põe de lado cenários de ruptura.

“Estávamos a trabalhar com a direcção que encontramos e que na altura não encontrámos motivos para mudar. Depois de 8 meses, décimos avançar com uma nova equipa, precisamente para marcar as directrizes, deixar a marca do Conselho de Administração que tem um mandato”, explica, reconhecendo o trabalho da direcção cessante que tinha ainda Júlio Vera-Cruz Martins como Chefe do Departamento de Informação e Odair Santos na Programação.

Odair Santos que, entretanto, vai continuar no cargo, ao lado de Nélio dos Santos, a dirigir a partir de amanhã, 4 de Agosto, a informação.

sexta-feira, julho 24, 2009

PARABÉNS RCV

A Rádio de Cabo Verde foi ontem distinguida com um prémio pela cobertura jornalística que vem dedicando à Cidade velha. Foi a forma encontrada pela autarquia da Ribeira Grande de Santiago de reconhecer o trabalho desenvolvido pela RCV que, nos últimos tempos, tem de facto centrado a sua atenção no berço da nacionalidade.

Pese embora o simbolismo deste prémio, tem, pelo menos, o mérito de nos mostrar que é possível fazer mais e melhor. Isso passa, obviamente, por uma melhor organização interna, pelo derrube de alguns constrangimentos que interferem na engrenagem da produção informativa; por uma aposta na formação dos profissionais; na especialização por editorias; numa gestão de informação assente numa visão estratégica…

O mais importante: melhorar a motivação dos jornalistas e demais profissionais. Isso passa, claro, por desbloquear a carreira dos jornalistas (paralisada há quase dez anos), apostando no mérito e na competência, o que se consegue com a avaliação de desempenho. Colocar toda a gente no mesmo saco só contribui para a apatia e desmotivação gerais.

É de elementar justiça frisar que a distinção com que a Câmara Municipal da Rª Grande de Santiago achou por bem presentear a Rádio de Cabo Verde, no dia do município, se deve ao desempenho do jornalista Elisângelo Ramos (um dos mentores deste blogue) que, apaixonado pelas questões culturais, tem produzido excelentes reportagens sobre a cidade-berço. De entre estes trabalhos destacamos a série de reportagens especiais “Cidade Velha: Pedras que falam”.

Ainda no passado domingo, o jornalista produziu e apresentou um documento extremamente valioso sobre a atribuição à Cidade Velha do estatuto de Património da Humanidade. “O Sorriso da Nação”, assim se chama a grande reportagem que recupera esse género infelizmente desaparecido da rádio.

O Elisângelo fê-lo explorando as virtualidades da acústica da rádio, permitindo ao ouvinte experimentar outras sensações que não apenas através da audição. Ao ouvir a reportagem, vêem-se as grossas bátegas de água a acariciar a terra, rolando depois pelas ribeiras ressequidas; o céu a desabar com grande estrondo sobre a rua banana e o pelourinho; as caravelas a aproarem para junto da praia; sente-se o gemido contido do negro ao ser chicoteado junto da picota. De repente, ouve-se o repicar dos sinos na Sé; o céu abre-se num sorriso de alegria. É o sorriso das gentes simples que doravante só querem ver a sua vida melhorada… sim porque a cidade velha está na boca do mundo.

Lamento que o jornalista não tenha submetido esta grande reportagem ao prémio de jornalismo António da Noli. Por falar nisso, talvez o concurso ganhasse mais participação e competitividade se houvesse uma divisão por categorias: uma para a rádio, outra para a televisão e uma outra para a imprensa. Já agora que se aumente o valor do prémio. Jornalismo de investigação dá trabalho e custa dinheiro.

Na era da imagem, torna-se difícil, senão mesmo impossível, a rádio bater a televisão neste tipo de concursos. Por mais criativa que a reportagem da rádio seja. A televisão continua a fascinar com o poder demolidor da imagem. Não é à toa que é conhecida pela “caixa mágica”. Muito difícil será a tarefa para os jornais.

Ainda assim, gostaria de dar os parabéns a Isabel Silva Costa pelo excelente trabalho sobre a Cidade Velha. Uma série de pequenas peças, reportagens, bem elaboradas, numa escrita acessível, simples, própria da televisão. Isso demonstra que às vezes os recursos técnicos não são tão importantes. A criatividade, a inovação e a qualidade fazem toda a diferença. Para quê investir em megas produções, sumptuosas em termos de recursos técnicos e humanos, de orçamentos milionários, para o produto ser visto por meia dúzia de elites que acham que a televisão é cultura de massas?





quinta-feira, julho 23, 2009

OUVINTES MAIS EXIGENTES

Ao contrário do que acontece com as rádios temáticas, Praia FM, Crioula FM e Cidade FM, as rádios generalistas não procuram ter como alvo um público específico (p.e. jovens) na sua área de difusão, mas satisfazer o conjunto do público.

Isso obriga as rádios a considerarem os hábitos de audição e exigências de cada um dos públicos potenciais. Os jovens, os reformados, os desempregados, as donas de casa, os amantes de música jazz, de desporto… terão todos uma ou mais emissões que lhes são dedicadas, programas que vão ao encontro dos seus hábitos de audição radiofónica.

As rádios generalistas precisam de uma equipa de competências tão variadas quanto as suas emissões: informações, magazines, deporto, produção de programas culturais, económicos, políticos, animação de antena, etc. Em traços gerais, são rádios que se escutam com mais atenção do que as rádios musicais que simplesmente se ouvem.

No nosso panorama radiofónico, podemos apontar como exemplos de rádios generalistas, a Rádio Nova, a Rádio Comercial, a Rádio Educativa e a Rádio de Cabo Verde. Apesar de terem uma audiência delimitada, pela natureza da sua missão, as rádios comunitárias devem ter uma programação generalista. Contudo, cabe à RCV uma definição clara da sua programação devido ao compromisso que mantém com o Estado no sentido de prestar aos cabo-verdianos um serviço público de qualidade.

A exigência de um serviço público de rádio está, aliás, inscrita na Constituição da Republica (art. 9º) e desdobra-se na restante legislação do sector, com destaque para a lei da comunicação social (lei nº 56/v/98) e da rádio (lei nº 10/93).

Como muito bem disse há tempos neste blogue um seguidor atento, não existe diferença acentuada entre jornalistas da rádio e da televisão públicas e jornalistas dos órgãos privados, embora àqueles que trabalham nos órgãos de comunicação social de serviço público lhes seja exigido o cumprimento escrupuloso das normas éticas e deontológicas da profissão, bem como uma maior consciência da responsabilidade social adveniente do estatuto de operador público.

De igual modo, pensamos que não há um jornalismo para o serviço público de rádio e um jornalismo para as estações privadas. Mas, pode (e deve) haver uma informação que será mais específica aos operadores públicos. Até porque, uma estação pública e uma estação privada não seguem, pelo menos teoricamente, a mesma engenharia de programação e as mesmas prioridades.

Significa isso dizer que a grelha de um canal generalista de serviço público, no que diz respeito à informação, não pode ser saturada de conteúdos de entretenimento, nomeadamente em horário nobre, devendo, antes, ocupar esse segmento com formatos que contextualizem acontecimentos, que promovam o debate social e que ajudem a dar relevância a realidades que permanecem na sombra.

Embora seja difícil encontrar uma única definição que nos remeta para a essência de uma informação de serviço público, podemos expor algumas linhas de acção para uma programação de informação para os canais públicos. Assim devem:

Proporcionar uma visão global e contextualizadora dos factos;
Procurar o contraste de fontes diversificadas;
Fazer uma rigorosa depuração dos factos;
Promover o aprofundamento das consequências sociais, politicas e económicas dos factos;
Debater-se por um equilíbrio na cobertura territorial, social e cultural;
Introduzir um enfoque pluralista e imparcial nas opiniões veiculadas.

Será que estamos a fazer isso? Não é essa, pelo menos, a opinião das pessoas ouvidas em sede do segundo inquérito à satisfação e audimentria dos órgãos de comunicação social. Exigem que os conteúdos (a começar pelas notícias/programas de informação) sejam variados e de qualidade.

terça-feira, julho 21, 2009

OS DIAS DA RÁDIO

Nuno Sardinha (RDP-África) e Carlos Santos (RCV)
O último inquérito à satisfação e audimentria dos órgãos de comunicação social traz alguns dados que nos interpelam a uma reflexão crítica aturada. Tarefa que cabe a todos, profissionais, ouvintes, leitores e telespectadores mas, sobretudo, aos responsáveis pela gestão dos órgãos.

Não é minha intenção fazê-lo neste blogue. De todo o modo, apraz-me tecer alguns comentários, tendo, desde logo, como ponto de partida, os resultados da pesquisa sobre as rádios.

Uma vez que a pesquisa se realizou em Março deste ano, não se percebe por que não existem, em todo o estudo, quaisquer referências à RCV+, o canal jovem da Rádio de Cabo Verde. Espera-se que a direcção da RCV tenha já requerido explicações plausíveis à Direcção Geral da Comunicação Social, promotora do estudo, e que esteja em condições de no-las apresentar.

A RCV+ está no ar desde os finais de Dezembro de 2007, tem uma programação própria, de 24 horas non stop, dirigida preferencialmente ao segmento jovem do público. Tem frequência própria, 95.5, a mesma que é também sintonizada em S. Vicente e arredores.

A não inclusão da RCV+ na medição do grau de satisfação dos ouvintes e de audimetria beneficia directamente a Praia FM, estação que aliás consolidou a sua posição de liderança na capital e alargou a sua notoriedade dirigida a nível nacional. Aliás, diga-se em abono da verdade, a jovem estação é a que, de acordo com os dados, mais subiu, apesar de a RCV ter mantido a sua posição de líder de audiência a nível nacional.

Ora, acreditamos que caso a RCV+ fosse tida em conta no questionário, a Praia FM não teria os resultados que alcançou. Convém não esquecer que em Cabo Verde o efeito novidade conta muito. A Praia FM está há dez anos no ar e já apresenta alguma saturação em termos do formato. Isso não significa que a RCV+ não precisa reavaliar a sua estratégia, aproximando-se mais das expectativas do seu público.

Não deixa contudo de ser estranho que a RCV+ não apareça sequer na “notoriedade espontânea”. Ou seja, quando se pede ao ouvinte que indique os nomes (aqueles de que se recorda) de algumas rádios que costuma ouvir. Ninguém se ter lembrado da RCV+, é obra!

Muito estranho. A RCV+ é silenciada e inclui-se no estudo uma rádio que há um ano está fora do ar: a Mosteiros FM. Como é possível que se peça aos inquiridos que se pronunciem sobre a programação de uma rádio que, no momento da realização do inquérito, está fechada devido ao acumular de constrangimentos técnicos e financeiros?

Quando é que em Portugal se ia meter num estudo da audiência apenas a RDP, esquecendo-se que ela se divide em canais: Antena 1, Antena 2, Antena 3, RDP-Africa, etc? A própria RR tem também o seu canal jovem, a RFM que é, aliás, líder de audiências. Bom, deixemos este descaso para os responsáveis.

O estudo mostra que há ainda em Cabo Verde um número considerável de pessoas que ouvem a rádio mais de 6 horas por dia, mas há, contudo indicações de que esse cenário está a mudar. Com o passar dos anos, com a massificação da Internet, com uma oferta televisiva cada vez mais de qualidade, a rádio irá gradualmente perder audiência, embora jamais deixará de ser ouvida. O que é certo que as audiências não serão tão astronómicas como as que se registam hoje.

O estudo faz uma divisão de águas em relação a audiência das várias rádios. Mostra que a RCV e, em menor grau, a Rádio Nova, têm a preferência dos adultos (mais homens) e sobretudo daqueles que possuem o pós-secundário. A Praia FM e a Crioula FM são mais apreciadas pelos jovens, o que não surpreende, uma vez que são estações temáticas (música e publicidade) direccionadas à faixa dos 14 aos 25 anos.

Falemos dos conteúdos. Os inquiridos pedem programas variados e de qualidade. As notícias devem ser melhoradas dizem os ouvintes que, para já, dão preferência à música. Os programas de debate, culturais e educativos merecem a preferência de apenas (pasme-se) 7% dos inquiridos. Isto dá que pensar, por isso deixo-o para o próximo post.