Pergunta: Como era a rádio quando começaste a trabalhar (os testes para a entrada na rádio, as hierarquias, o trabalho desenvolvido, a opinião dos ouvintes, as estratégias de programação e informação) e como é que se desenvolveu o teu percurso?
Resposta: Comecei a trabalhar na rádio em 1985, mais precisamente a 01 de Julho, nas vésperas do 10º aniversário da independência nacional. Fomos nessa altura um grupo de 12 candidatos que, após um concurso muito participado, foram escolhidos para, durante cerca de um ano, receber formação em jornalismo e em áreas complementares. Para além das técnicas e das regras de ética e deontologia da profissão, tivemos módulos de economia, política, ciências sociais etc. Houve igualmente uma parte da formação ministrada pelo CENFA, voltada para o conhecimento da Administração Pública cabo-verdiana, e outra sobre política internacional. A vertente jornalística da formação foi ministrada por profissionais portugueses, de que posso citar alguns nomes, nomeadamente o António Jorge Branco, então jornalista e integrante da Cooperativa de Comunicação Social TSF, que foi o coordenador de todo o curso, Emídio Rangel, Adelino Gomes, Carlos Cruz e Teresa Moutinho, entre outros. Também tivemos como monitores muitos quadros cabo-verdianos, entre os quais pontuava o falecido Renato Cardoso. Do grupo dos 12, faziam parte a Fátima Azevedo (actualmente na Cabo Verde Investimentos) e a Salomé Monteiro, que já trabalhavam na Emissora Oficial havia vários anos, e ainda a Elizabete Correia (a trabalhar actualmente na TCV), que tinha alguma experiência ao nível de produção na Rádio Educativa. Elas não participaram no concurso de acesso mas apenas no curso que se seguiu. Os restantes elementos do grupo eram o Valdemar Almeida, o Mário Almeida (cito estes em primeiro lugar porque, para além de mim e da Salomé Monteiro, são os que ainda trabalham na RCV), o Valdir Alves (actualmente nos EUA), a Laura Silva (actual quadro da TACV), o Nicolau Andrade (nos EUA), o falecido e saudoso Manuel Almada (Kaya), que depois iria integrar a redacção do jornal “Voz di povo”, o Renato Fernandes (actual oficial da PN) e o Emílio Borges (a viver em Portugal). Iniciámos o curso em Janeiro e um mês depois, já de posse dos primeiros rudimentos teóricos de jornalismo, começámos a trabalhar em simulador, tendo sido distribuídos em quatro turnos de trabalho. O primeiro (dois elementos), de que era editor o Valdemar Almeida, ia das 04H00 às 09H00 da manhã e produzia e apresentava as sínteses informativas das 05H00, 06H00 e 08H00, para além dos Títulos da Actualidade às 06H30 e o Primeiro Jornal às 07H00. O segundo turno (quatro elementos), que começava às 08H00, era coordenado pela Fátima Azevedo e fazia as intercalares hora a hora, os títulos das 12H30 e o Jornal da Tarde, às 13H00. A edição do terceiro turno (quatro elementos), que se ocupava das sínteses horárias ou flashes, como também lhes chamávamos na altura, dos títulos das 19H30 e do Jornal Noite, às 20H00, era assegurada pelo Valdir Alves. Finalmente tínhamos o último turno, que eu coordenava, e ia das 18H00 às 00H00, editava e apresentava as notícias intercalares das 20H00, 21H00 e 22H00, os títulos do Jornal às 22H30 e os títulos do dia, à meia noite. Tudo isto fazia parte da nossa formação, uma vez que, como já disse, tratava-se de um simulador. Saíamos à rua, procurávamos e reportávamos coisas do dia a dia do universo social da capital, cobríamos os acontecimentos da chamada agenda oficial, dávamos conta dos eventos desportivos e, com esse material de reportagem, produzíamos todo o conjunto de serviços informativos já descrito, embora em circuito fechado. Não íamos para o ar, estávamos apenas preparar-nos, e isto aconteceu durante meses, para o grande momento em que seríamos lançados para o éter em directo e sem outra protecção contra as críticas que aquela que derivasse da nossa capacidade de fazer um bom trabalho. Esse momento chegou no dia 01 de Julho de 1985, com a cobertura das actividades comemorativas do 10º aniversário da independência nacional. Estivemos no ar durante uma semana, com todo o leque de edições informativas que já tínhamos testado em simulador. Embora há quem não goste da palavra, e não querendo sobrevalorizar os acontecimentos tanto mais que neles fui participante activo, tratou-se de uma pequena-grande revolução na vida da rádio em Cabo Verde, a começar pelo facto de, pela primeira vez, ela produzir informação seleccionada, elaborada e hierarquizada com base em critérios puramente jornalísticos. Um exemplo disso é que rompemos com uma prática tradicional que consistia em dar conta, na abertura dos noticiários, das actividades do Presidente da República. Antes desse dia 01 de Julho de 1985, todos os serviços informativos abriam religiosamente da mesma forma: O secretário-geral do PAICV e Presidente da República recebeu hoje de manhã em audiência… e depois toda uma vasta lista de coisas que o chefe de Estado tinha feito ao longo da manhã, seguindo-se o anúncio do que viria a fazer à tarde, por menos interesse jornalístico que essas informações tivessem. Outro ganho introduzido dizia respeito à duração das peças, que deixaram de ter quatro, seis ou mesmo 10 minutos, passando a responder todas ao mesmo critério temporal de um máximo de dois minutos. O alinhamento das notícias nas edições informativas também passou a respeitar os critérios jornalísticos, e hierarquização das matérias era definida pelo próprio editor, em concertação com a sua equipa. Pela primeira vez na história da rádio em Cabo Verde uma notícia do desporto, uma ocorrência de âmbito social envolvendo cidadãos comuns e não os dignitários do regime ou, ainda, uma matéria de cariz internacional passaram a ter dignidade de “primeira página”. Tudo isto para não se falar já do grande fluxo de informação que era produzido, de hora a hora, quanto até aí a Emissora Oficial, em simultâneo com a Rádio Voz de São Vicente, apenas apresentava o Jornal da Tarde e o Jornal da Noite. Deve-se ainda salientar, como um advento não menos importante, os grandes avanços que a estrutura da rádio pública, a única que havia então, conseguiu. Foi nessa altura que a Emissora Oficial, a Rádio Voz de São Vicente e a Retransmissora do Sal (que se transformaria então, numa delegação) se congregaram e deram fundação à Rádio Nacional de Cabo Verde (RNCV), passando a constituir um órgão de informação único com uma estrutura descentralizada. Passou a haver uma programação nacional, uma produção informativa coordenada e dinâmica e uma rede de radiodifusão que já cobria, apesar das limitações técnicas e tecnológicas de então, a maior parte do território nacional e o grosso da população do país. Não tenho dúvidas em dizer que a informação radiofónica e o jornalismo cabo-verdiano, nessa altura, deram um passo importante, mesmo que pequeno, para começar a libertar-se das teias próprias de um regime de partido único. Foi a partir dessa época que, na rádio cabo-verdiana, se deixou de qualificar os elementos da UNITA como rebeldes e os da RENAMO como bandidos armados. Também foi a partir dessa altura que, embora tímida e gradualmente, se começou a expurgar da linguagem jornalística radiofónica o tratamento de “camarada”, então obrigatório nas referências aos dirigentes do país. Mas não estou a dar registo destes factos para reivindicar para nós, todos aqueles que começaram a fazer rádio em 1985, o estatuto de opositores ao partido único. Não, conto isto apenas para referenciar que professávamos um compromisso forte para com o jornalismo que tínhamos aprendido e que queríamos pôr em prática. Tanto mais que poucos ou nenhum de nós, à semelhança do que ocorria, aliás, com o grosso da sociedade cabo-verdiana, tinham uma percepção consciente do fenómeno e do ambiente políticos na altura, nem tampouco da perspectiva que se viria a concretizar cinco anos mais tarde, com a abertura política.
Pergunta: E como é que os ouvintes, e a sociedade no seu todo, reagiram a esses acontecimentos?
Resposta: Julgo que com alguma surpresa, por um lado, e com um misto de agrado e de um forte espírito crítico, por outro. Tínhamos feito a “Informação Especial 10º Aniversário da Independência Nacional” e depois retomámos a nossa formação. Foi um momento marcante nas nossas carreiras, e cada um haverá de recordá-lo à sua maneira. Um pormenor de que eu, pessoalmente me lembro bem, além, naturalmente do ambiente vivido e do gozo que a experiência proporcionou, é do genérico dos nossos serviços informativos. O jingle foi “construído” a partir de uma interpretação musical do Paulino Vieira, de que não recordo o título, e o off (Informação Especial X Aniversário da Independência Nacional) foi feito pelo Giordano Custódio. Mas a referência que guardo é que, depois dessas emissões especiais, houve muita gente que nos incentivou mas também houve pessoas que criticaram, com mais ou menos dureza, a nossa prestação, mas basicamente no domínio da apresentação.
Pergunta: Qual era o tom dessas críticas?
Resposta: Até a nossa entrada, os ouvintes estavam habituados a um tipo de serviço informativo apresentado por locutores (que se assumiam como tal) com largos anos de prática e que primavam por uma dicção cuidada. Na maior parte dos casos, esses locutores nada tinham a ver com o processo de produção jornalística e apenas tomavam contacto com os conteúdos na hora de os apresentar. Excepções a esses casos eram o António Pedro Rocha, o Carlos Gonçalves e a Fátima Azevedo. Tínhamos também o Francisco de Pina, considerado por muitos a melhor voz de sempre da rádio em Cabo Verde e o Ivo Vera Cruz mas que, embora sendo quadro da Emissora Oficial, não era jornalista. Para a apresentação dos noticiários fazia-se também recurso a pessoas de fora como o José Gonçalves e o Barreto Monteiro, igualmente excelentes locutores. Como se vê, os ouvintes estavam habituados a uma qualidade de apresentação que não podia ser garantida por pessoas que, como nós, não tinham qualquer experiência de microfone. Daí que a vertente apresentação do nosso trabalho tenha saltado à vista pela negativa, embora o nosso coordenador, o António Jorge Branco, nos dissesse sempre que o mais importante era a qualidade dos conteúdo, ressalvando sempre, no entanto, que tínhamos de esforçar-nos por fazer uma comunicação clara e convincente, mesmo que não tivéssemos a voz e a dicção de um Francisco de Pina ou de um José Gonçalves. Mas entre críticas e incentivos, lá fomos fazendo o nosso trabalho, procurando superar-nos naquilo em que tínhamos mais debilidades, nomeadamente na apresentação. Houve muitos comentários e, inclusivamente nos jornais se escrevia sobre as “novas vozes” da rádio. Lembro-me, por exemplo, de uma crítica feita pelo Jorge Alfama na coluna que assinava no jornal Tribuna, na qual nos chamava “Jornalistas de Meia Garrafa”. Confesso que não sei o porquê da escolha desta expressão mas caiu muito mal entre o colectivo, e tivemos que exercer o nosso direito de resposta. Lembro-me de ter sido eu a escrever o texto, que foi aprovado pelos colegas e publicado no mesmo jornal. A propósito ainda desta questão, consta que o Corsino Fortes (que era o secretário de Estado da Comunicação Social) e o Corsino Tolentino (na altura ministro da Educação), ter-se-ão encontrado numa cerimónia pública e, como um dos assuntos incontornáveis do momento era a nossa prestação na novel Rádio Nacional de Cabo Verde, o segundo terá perguntado ao primeiro:
- Mas oh, Corsino, onde foste buscar esses locutores que tens agora na tua rádio?
De forma serena e bem-humorada, como é seu timbre, o Fortes volta-se e responde:
- Onde havia de ser? Nos teus liceus.
Não sei se este episódio terá realmente acontecido mas ilustra bem as incompreensões que tivemos que enfrentar para nos afirmarmos. Muita gente não estava preparada para o jornalismo que introduzimos no universo da rádio em Cabo Verde, porque a principal preocupação não era com os conteúdos mas com a forma de que se revestiam para chegar até aos ouvintes. Mas as coisas viriam a piorar ainda mais quando o Ministro da Informação, Cultura e Desporto, David Hopfer Almada, ordenou a nossa retirada das antenas da RNCV, entregando a apresentação dos serviços informativos aos locutores profissionais. Devo dizer que isso constituiu um grande revés, na medida em que encarávamos o microfone como um complemento, se calhar não muito importante mas necessário, do nosso trabalho. Alguns de nós desistiram de vez dessa vertente do trabalho jornalístico radiofónico mas a maior parte persistiu e hoje somos os profissionais que todos conhecem, não digo nem bons nem maus mas, seguramente melhores do que no princípio.
(Continua…)