Terça-feira, Setembro 22, 2009

O jornalismo não admite decisões precipitadas

O fundador do Expresso não tem dúvidas: o governo português seguiu uma estratégia para debilitar e enfraquecer os grupos privados. E o ministro responsável nunca compreendeu nem quis compreender os problemas da comunicação social numa época de rápidas mudanças. O presidente do maior grupo privado de comunicação social ainda se considera um jornalista. Francisco Pinto Balsemão, com quem nos encontrámos a semana passada na sede da Impresa, está à cabeça de um pequeno império que inclui o Expresso e a SIC – os dois projectos a que sempre esteve mais ligado – mas também revistas como a Visão, a Caras ou a Activa ou serviços na Internet.

“Reformar-me?”, atira-nos, malicioso, quando lhe perguntamos se um dia deixará a liderança do seu grupo. “Tenciono trabalhar até morrer – e isto se eu morrer, como costumava dizer o meu amigo Roberto Marinho” (da TV Globo). Passada a barreira dos 70 anos, mantém o gosto pelas discussões sobre o futuro do jornalismo, mostrando estar atento às novas tendências.
A Impresa tem uma posição central no sector da comunicação social, mas há analistas que consideram que lhe faltam capitais próprios.
É verdade?Definimos uma rota e estamos a segui-la, pelo que até já apresentámos resultados positivos no segundo trimestre e, nas previsões que estão publicadas, contamos chegar ao fim do ano – deste ano terrível –, com resultados positivos. Isso será possível porque tomámos medidas de contingência a tempo, faz agora já mais de um ano, e por isso conseguimos ter um orçamento para 2009 realista e que está a ser cumprido.

Os analistas têm dito que um dos pontos fracos do seu grupo é a existência de um défice de capital de cerca de 100 milhões de euros.
Não sei o que é um défice de capital. Temos uma dívida que tem vindo a ser paga e temos investido. Em 2008 investimos na compra de 50 por cento da empresa das revistas e este ano investimos na compra de 40 por cento da Lisboa TV, proprietária da SIC Notícias. Vamos cumprir não só a rota definida paraeste ano como para os próximos anos e continuámos a investir, agora em estúdios para a SIC, um passointermédio para a construção de instalações para o grupo todo que deverão estar concluídas em 2011, 2012.
O grupo passa por um processo de reestruturação e convergência do grupo. Porquê?
Começámos pela fusão das três redacções da SIC generalista, SIC Notícias e SIC online, que já estãointegradas. No grupo temos hoje uma agenda comum, criámos uma bolsa de especialistas, realizamos trabalhos para os vários meios com uma única equipa de jornalistas. Por outro lado, na integração online, embora cada marca mantenha a sua personalidade, ainda há muito a fazer mas já demos muitos passos. A equipa compreendeu que isto é um negócio multimédia, que temos de produzir bons conteúdos e depois distribuí-los no maior número de plataformas diferentes.
O grupo nasceu com o Expresso, um jornal em papel. Com essa evolução não se vai descaracterizar?
Todos os grupos que começaram com o papel estão a evoluir. Parar é morrer. Num grupo como o nosso é possível ter uma parte comum e depois cada “chefe de cozinha” de cada título, ou de cada plataforma, vai às matérias-primas buscar aquilo que entende para apresentar o seu produto final. O Expresso dá o seu tratamento, a SIC outro tratamento. Não é nada complicado.Como financiar o negócio dos media quando as receitas do online são ainda tão baixas?
O modelo actual ainda está muito centrado em ter mais tráfego, logo o acesso é gratuito, na esperançade ter mais publicidade. Está a demonstrar-se que isso não é possível. E julgo que a evolução, que será mais acelerada do que muita gente pensa, passará por uma parte dos conteúdos divulgados pela Net ser paga.

Murdock vai passar a cobrar o acesso aos seus conteúdos da Net…
Esse exemplo é importante, pois vem do maior grupo de media do mundo. Julgo que esse é o caminho, não apenas criando sistemas de assinaturas, mas também permitindo a compra à la carte. Nada nos impede de vender a opinião do Expresso, as entrevistas da Visão, os conselhos de moda da Activa, a Quadratura do Círculo da SIC Notícias num pacote que o cliente forma ele próprio.
É possível rentabilizar estes negócios quando há um operador público a disputar receitas?
É difícil porque a RTP faz não só concorrência desleal às televisões como a todos os meios de comunicação, pois, ao ter publicidade, está a ficar com uma fatia de um bolo que já é pequeno.
Continua, pois, a defender que a RTP não deveria ter publicidade?Sim. E que devia cumprir com rigor o contrato de concessão em matéria de programação. Os programasde entretenimento puro e duro já existem em dois canais privados, para além dos canais temáticos que já se dedicam ao entretenimento.

Como avalia a relação que o Governo tem mantido com a comunicação social?
Uma coisa é haver políticos com melhores ou piores relações com a comunicação social, ou que compreendem melhor ou pior o papel de cada um. Outra coisa é haver, como julgo que existiu neste Governo, um plano para enfraquecer os grupos de comunicação social privados. Se virmos o Estatuto do Jornalista, a Lei da Televisão, os poderes concedidos à ERC, a lei da concentração ou o concurso para o quinto canal, encontramos dados objectivos que permitem fundamentar a existência dessa estratégia de debilitar e enfraquecer os grupos privados. Ainda por cima o ministro que foi escolhido para esta área, Augusto Santos Silva, e já lho disse a ele, foi o pior ministro que houve desde o 25 de Abril. Nunca fez qualquer esforço para compreender os problemas, para tentar ajudar à convergência, para perceber o salto que é preciso dar, para entender as dificuldades do modelo de negócio da Internet. Se se quer uma comunicação social que funcione, que seja independente e que ajude à formação e à informação das pessoas, é necessário não só conversar, como compreender e criar incentivos. Ora isso nunca aconteceu, pelo contrário: a estratégia foi a inversa.O Governo quis fortalecer o grupo do Estado ou colocar
Os privados em situação de dependência?
As duas coisas.

Isso surtiu efeito?
Se olharmos para os jornais, para a informação das televisões, acho que não surtiu efeito em termosgerais. O que não quer dizer que não tenham existido alturas em que tenha conseguido os seus objectivos.
Concorda com o PS quando diz que este Governo foi o mais maltratado pela comunicação social?
Todos os Governos são ao princípio demasiado bem tratados e no final demasiado maltratados. Este nãofoi tratado pior do que os outros. Há uma altura em que acaba o “estado de graça”, e de um momento para o outro inverte-se a situação. No caso deste Governo, boa parte do que sucedeu até se deve à sua atitude. Há ministros, como Vieira da Silva, que tiveram sempre a chamada boa imprensa, não é porque tenha mais jeito do que outros, mas porque fez uma obra que é respeitada. Os jornais não são injustos.

Como interpretou o que se passou na Media Capital, com a intervenção da Prisa na decisão de acabar com o Jornal de Sexta-feira?
É um puzzle do qual me faltam algumas peças e portanto não me devo pronunciar.
Como jornalista, não apenas como gestor, considera que a decisão do accionista de pôr fim ao jornal de M.M.G. foi censura?
Essa questão é complicada. Na Impresa meto-me muito pouco no que está para sair, mas meto-me bastante no que já saiu. Mas, daí a vantagem de ter sido jornalista, critico ou elogio de igual para igual nas reuniões semanais que faço no Expresso e na SIC. E quando falo, faço-o segundo critérios jornalísticos. No meu caso, se entendesse que esse serviço de notícias tinha defeitos jornalísticos, e teria alguns, já o teria dito.

De onde vem o poder de um director de informação?
O director de um jornal ou de um canal de informação, enquanto tiver a confiança da administração, teráde ter todo o poder. Se perder a confiança nele, demito-o.Mas não foi isso que se passou na TVI, porque a Prisa passou por cima do director de informação quando decidiu acabar com o jornal de M.M.G.
O director de informação demitiu-se depois, em bloco com as outras chefias, não foi demitido. Foi uma forma atabalhoada de resolver o assunto?
A observação é vossa. Mas digo mais: ao nomear um director de informação, é muito importante ouvir os jornalistas através do Conselho de Redacção (CR). Desde o tempo em que apresentei a Lei de Imprensa no Governo de Francisco Sá Carneiro que defendo os CR e não me importo nada que os CR tenham mais poder. Porque se o CR se opõe é porque a redacção não quer e não devo impor-lhe um director. É um disparate, não faz sentido. Prefiro mil vezes estar resguardado pelos representantes da redacção. O jornalismo é demasiado importante para haver decisões precipitadas seja de quem for, pelo que deve haver mecanismos de consulta, de ponderação, que eu sempre resguardei.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Quando as fontes é que ‘mandam’ no jornalismo

Quase dois terços das notícias de política na imprensa diária são influenciadas por fontes interessadas e a esmagadora maioria sem qualquer referência a quem as veiculou. Esta parece ser a grande conclusão de um estudo de Vasco Ribeiro, docente da Universidade do Porto, que vai ser lançado quinta-feira na FNAC do Norteshopping, em Matosinhos.

Ainda sem ter lido o trabalho e, por conseguinte, desconhecer a consistência do estudo, não posso deixar de sublinhar a importância de uma investigação desta natureza que comprova e ilustra aquilo para que, há mais de uma década, o especialista luso-brasileiro Carlos Chaparro vem chamando a atenção: a “revolução das fontes” e o seu impacto no jornalismo.

De facto, muitos analistas foram, nos últimos cinquenta anos, chamando a atenção para os processos através dos quais os media jornalísticos influenciam a sociedade e a sua “agenda” de questões. Mas poucos têm sido os que olham um pouco mais a montante: os processos e a dimensão da influência de forças externas sobre a agenda das redacções. Este ponto de focagem é sem dúvida um dos mais relevantes para se compreender hoje o papel social do jornalismo – o modo como exerce (ou não) a mediação e a filtragem daquilo que, de formas cada vez mais sofisticadas, a ele chega.

A revolução das fontes consistiria, por conseguinte, nos processos de institucionalização e profissionalização de um trabalho a montante dos jornalistas, do qual um dos vectores mais salientes consiste em dar visibilidade aos interesses que essa actividade serve.

Ao contrário do que um juízo imediatista poderia fazer pensar, não se trata de identificar a “fonte da perversão e da maldade” que estaria a inquinar o jornalismo. Trata-se de reconhecer duas áreas de enorme incidência política e económica, cada qual configurando uma esfera específica e legítima de acção social, com a sua lógica e objectivos próprios. A ameaça e o desafio no facto de o jornalismo não se preparar adequadamente para esta nova situação e, pelo contrário, ter porventura criado as condições (redução de efectivos, precariedade, baixos salários, desigualdade) que permitem que seja a lógica das fontes a sobrepor-se à lógica do jornalismo.
Fonte: Jornalismo e Comunicação

Fontes sofisticadas de informação


Um estudo sobre a influência das fontes na construção do noticiário político em Portugal concluiu que "só um terço do produto jornalístico dos diários estudados é produzido por iniciativa das redacções".

"Mais de 60 por cento das notícias analisadas resultaram da acção de indução por parte de assessores de imprensa, relações públicas, consultores de comunicação, porta-vozes e outros peritos em 'spin doctoring', ou seja, são determinadas pelas chamadas fontes sofisticadas de informação", salientou hoje, em declarações à Lusa, Vasco Ribeiro, autor da investigação que deu origem a um livro que será lançado quinta-feira no Porto.

Outro dado que o autor destaca desta investigação é "a incapacidade do consumidor das notícias de detectar a intervenção dos técnicos de comunicação e relações públicas na construção das mesmas".

"Isto porque só em 1,3 por cento do total das notícias analisadas foram identificadas fontes profissionais de informação, facto que faz jus ao rótulo 'sombra' frequentemente colado a estes profissionais", considerou Vasco Ribeiro.

O autor investigou o noticiário político dos quatro principais títulos da imprensa diária portuguesa de âmbito nacional e generalista e aferiu o peso relativo de cada um dos tipos de fontes, identificou os meios de transmissão de informação aos media e caracterizou os graus de confidencialidade adoptados nesta tarefa.

Através da análise sobre 15 anos de notícias políticas publicadas pelos principais diários nacionais, "Fontes Sofisticadas de informação" apresenta-se como "uma singular investigação sobre a influência das fontes na construção do noticiário político em Portugal", explicou.

O estudo baseia-se na análise de conteúdo das secções de "Política" e "Nacional" de Correio da Manhã, Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Público, nos anos 1990, 1995, 2000 e 2005.
O autor analisou, no total, 5.054 notícias para aferir o peso relativo de cada tipo de fontes, identificar os meios de transmissão de informação aos média e caracterizar os graus de confidencialidade adoptados nesta tarefa.

Vasco Ribeiro é docente do curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto e da EGP - University of Porto Business School e director de Comunicação da Universidade do Porto.
Consultor de comunicação de varias empresas e instituições públicas já dirigiu a campanha de várias candidaturas políticas.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

E tudo a chuva levou...

Elisângelo Ramos
O Festival de Música, este fim-de-semana, na Praia de Santa Maria, no Sal. Consequência da chuva que Sábado e Domingo bateu sobre o País. A suspensão do certame põe, entretanto, a nu as fragilidades da produção cultural no País. Apupada pelos festeiros - desiludidos - a Organização - também triste - pediu desculpas e deu vivas a chuva. A este propósito publicamos o comentário do Jornalista Elisângelo Ramos, emitido esta segunda-feira, 14 de Setembro de 2009, no Pulsar Cultural da RCV.

A queda do Festival deveu-se a necessidade de garantir a segurança – de pessoas e bens. Por esta razão se procurou justificar a suspensão do evento. Uma justificação, diga-se, subjectiva. A única culpada pelo episódio seria a chuva que felizmente do alto do céu não tinha acesso ao microfone para se defender.

Os factos: após se ter reunido com artistas, técnicos de som, palco e iluminação a Organização decidiu pela suspensão do certame. A comunicação da decisão ao público no areal de Santa Maria, para quem ouvia a RCV, era algo indesejado para Jorge Figueiredo. Para um político é sempre difícil ser portador de más notícias.

A seu aparente favor tinha a chuva. A Empresa responsável pela sonorização dos espectáculos contava já alguns equipamentos danificados e apontava outros em estado de observação.

Embora seja legitimo julgar que esses equipamentos devam estar cobertos por algum seguro é de se compreender as razões que levaram o responsável pelo sistema de som a optar pelo seguro. Tanto mais que recordou: água e electricidade nunca fizeram casamento. Nada podia ser feito aquela hora – tudo era para ser feito antes, muito antes. E é aqui que as justificações para tanto investimento sem retorno (antes pelo contrário Santa Maria terá que reconquistar a credibilidade perdida) não colhem do ponto de vista da produção cultural.

O ocorrido vem abrir – caso haja gente aberta a fazê-lo – dizíamos, vem lançar o debate sobre em que condições logísticas são realizados os festivais de música em Cabo Verde.

É sabido - é tradição: festivais de música no País quanto mais sobre a boca do mar – melhor, e todos os festivais por cá realizados em época das chuvas – têm sido autênticos desafios a força da natureza e da resistência humana, cientifica e tecnológica.

O programador e planeador de qualquer evento deve ter sempre como primeira abordagem de trabalho uma equação transversal que não se resume ao espectáculo em si mas que concorrem para o sucesso ou desastre do mesmo.
Os poderes instituídos sempre podem dizer que em Cabo Verde inexistem espaços para eventos semelhantes. Real e tristemente não existem. Apontar no País um espaço cultural que garanta, pelo menos, a resposta às múltiplas exigências; de segurança, acústica, alimentação, saneamento, protecção ambiental e mesmo de transporte.

Todas as instituições que são chamadas – as vezes tardiamente – na realização deste ou daquele festival – são quase sempre contactadas em cima dos joelhos. Um trabalho que face a ausência de espaços paridos para esse tipo de evento acaba por ser defeituoso para todos.
O trabalho de improviso e/ou as pressas impera, em detrimento da programação e do planeamento.

Daí que os prejuízos económicos e financeiros resultantes do episódio deste fim-de-semana na Ilha do Sal sejam assacados aos promotores do evento. Não se pode culpar a natureza pela ausência de um acto humano. A atitude e decisão do planeamento, calendarização, logística e programação do Festival foram obra humana. O Homem erra. Mas convenhamos que os prejuízos poderiam ser evitados caso as condições logísticas fossem encaradas como rubricas fundamentais no desenho e na orçamentação do Festival.

É que nem sempre - e desta vez ficou provado – nem sempre é o artista o dono do espectáculo. O planeamento combinando a natureza e a criação humana bem poderia ser uma resposta eficaz as eventualidades climatéricas.

Mais: os acontecimentos de Santa Maria interpelam os poderes políticos para a necessidade de se dotar o País de infra-estruturas culturais para a realização dos Festivais de Música; combinando os interesses financeiros, ambientais e culturais. Em resumo: a tão propalada indústria cultural não se compadece com uma agenda de adiamentos sucessivos.

Nunca se saberá quanto o País perde com a suspensão do Festival, assim como nunca há de se saber porque motivo muitos apuparam a Organização do Festival que mesmo não tendo total responsabilidade pelo facto não deixa de ser a principal visada.

Cabo Verde tem excelentes produtores e agentes culturais capazes de assegurar os caprichos do céu. Portanto vir dizer que a chuva estragou tudo é desculpa que não colhe, por ser o Festival de Santa Maria um evento de teor profissional e longe do amadorismo de outros tempos. O trabalho de casa começa exactamente na proposta de orçamento municipal e na aplicação da política cultural autárquica, e do Governo que sabe também da sua quota-parte de responsabilidade; não fosse a segurança em toda a sua plenitude, também, uma função do Estado.

Os Festivais de Música em Cabo Verde são – hoje – um elemento de promoção cultural que ultrapassa de longe os limites do entretenimento e de lazer. Mais do que dar música ao vivo nas praias de Cabo Verde são provadamente uma importante fonte de receita ao bolso público e de milhares de cidadãos; de muitas famílias que apenas vivem desse expediente. Depois de meses de trabalho e milhares de contos investidos o Festival de Santa Maria morreu na Praia. Resta saber se o contribuinte será, uma vez mais, chamado a pagar o prejuízo.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Sobre o mau uso da língua portuguesa entre nós, e não só

Não pretendemos com este artigo trazer ensinamentos da língua portuguesa a ninguém, nem tão pouco meter foice em seara alheia, pois existe gente com qualidade, formação e em quantidade suficiente para o fazer.

Porém, constata-se que ela tem sido tão maltratada, e a sua utilização, seja na modalidade escrita ou falada, tem sido recheada de erros tais e tantos, que de tão repetidos, levam-nos a, não raras vezes, pensar se somos nós que desaprendemos ou se houve inovações que ignoramos.
Dantes, em grupo reduzido de amigos, ora de forma fortuita, ora provocada, reuníamo-nos e em encontros informais, trocávamos ideias sobre a problemática.

Da nossa parte, depois de tanto ver e ouvir, optámos por nos distanciar da questão e conseguimo-lo, embora parcialmente. Entretanto, a situação ganhou tamanha dimensão, o que nos levou a quebrar o nosso silêncio para chamar a atenção de quem de direito, para que a situação não se agudize mais, especialmente agora que a língua cabo-verdiana está num processo de oficialização, que esperamos seja para breve.

O português continua a ser a língua oficial do país e, como tal, deve ser tratada com mais respeito, até porque, em nosso modesto entender, com os faladores do português que existem e proliferam entre nós, vemos poucos dotados das condições mínimas para o ensino da língua crioula.

Repare-se que de entre o vasto leque de professores que enformam a classe docente, não muitos conseguem construir uma frase em português, curta que seja, sem erros. Diga-se, em abono da verdade, que também os há que o fazem tão bem, que até fazem inveja a muitos, especialistas na matéria e que exclusivamente a isso se dedicam no seu país, que se proclama, e com razão, como berço da língua em apreço. A excepção só vem confirmar a regra.

Não pretendemos ultrapassar com essas reflexões as fronteiras deste país, para não contrariar o que no início dissemos (não meter a foice em seara alheia), mas não resistimos à tentação de citar alguns exemplos de erros que frequentemente nos chegam, através dos meios de comunicação social, seja do pais “berço”, seja do nosso.

Vejamos alguns:

Eles hadem vir, quando devia ser eles hão-de vir (este mais lá do que cá)
Os meus alunos obteram boas notas nos exames, em vez de obtiveram…….
Ele foi um dos que se esforçou ao invés de ele foi um dos se esforçaram.
Pedro interviu intensamente nas discussões, quando devia ser interveio intensamente
Enfim, haveria múltiplos exemplos desses que poderiam engordar essa lista, mas não é esse o nosso objectivo e não cabe no âmbito deste artigo.

A sua verdadeira razão (do artigo) prende-se com parte do noticiário que na TCV ouvimos e vimos ontem (dia 12) durante o qual convivemos com o à vontade com alguns responsáveis nos brindaram com determinados e graves erros, atropelando impiedosamente a língua que Camões e vários outros, incluindo não poucos cabo-verdianos, tão bem souberam glorificar. Iremos tentar reproduzir dois desses momentos, pecando talvez pela não precisão das frases proferidas (não foram gravadas), mas não no essencial, que constitui a causa deste apontamento.

Disse-se:

1) O festival teve a aderência de grande parte….. O festival não pode ter aderência, mas sim adesão.
2) Os objectivos traçados pelo Partido X, no âmbito da juventude, vão de encontro ao plano traçado pela organização que dirijo.….. Ir de encontro significa embater, chocar, portanto discordância. O político em causa com certeza que quereria dizer: os objectivos…. vão ao encontro de, que significa coincidem com.

Infelizmente erros destes ouvem-se por todo o lado e a toda a hora, mas preocupa-nos mais, quando na classe política, por exemplo, um Deputado (o que acontece com frequência) diz que ele está ali para defender interesses que vão de encontro às pretensões daqueles que o elegeram, ou então quando um Advogado em defesa de um cliente e argumentando em pleno Tribunal, diz que a dissertação da acusação foi ao encontro da dele e portanto das acusações de que o seu cliente é objecto. Obviamente que uma boa interpretação da afirmação da defesa confundiria qualquer Juiz.

Cuidemos mais e melhor da língua que, embora não seja a nossa, é a que temos por oficial. Se se proporcionar numa próxima oportunidade voltaremos ao assunto.

Óscar Ribeiro
Fonte: asemanaonline

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Raposas da Rádio


Adorei ter ouvido anteontem uma entrevista, aliás, para ser mais rigoroso uma conversa entre o Carlos Lima e o Fernando Carrilho. Sem dúvida, duas referências incontornáveis do panorama radiofónico cabo-verdiano. O pretexto do “Conversas ao Café” era mergulhar na poeira do tempo e trazer à tona as diversas facetas da vida do homem e jornalista Fernando Carrilho.

No entanto, ao invés de uma mera uma sessão de perguntas e respostas, assistimos a um contar de “estórias” de um percurso praticamente comum. Carlos Lima, contemporâneo do Carrilho na rádio – os dois terão começado a carreira quase na mesma altura, embora o Lima, salvo erro, ter-se-á estreado ligeiramente mais cedo na Rádio Clube do Mindelo – não se coibiu de partilhar também com os ouvintes algumas etapas da sua carreira de quase 40 anos.

Um excelente momento de rádio, como há muito não se ouvia. O Carrilho, não obstante ter-se retirado das lides da rádio, por motivos de saúde (esperamos não por muito tempo, pois o bichinho da rádio não se conforma com afastamentos tão prolongados e ainda para mais de forma abrupta, como foi o caso), continua um excelente comunicador, um radialista na verdadeira acepção da palavra, um exímio contador de “estórias”. E hoje a rádio pertence àqueles que sabem fazer rir e emocionar os públicos. É espantosa a forma como Carrilho conta “pirraças” no seu português, ora arrevesado, ora misturando com bom gosto algumas expressões em crioulo.

Como não podia deixar de ser, a conversa se deteve durante alguns minutos sobre a façanha da tomada da Rádio Barlavento. Quanto mais se conta este episódio que marca de forma indelével a história recente da radiodifusão e de Cabo Verde, mais me parece pertinente uma investigação (académica ou jornalística) que faça luz sobre assunto. Penso que volvidos quase 35 anos desse acontecimento, é tempo de conhecermos um pouco mais, não apenas o assalto à rádio (um rádio privada, lembre-se) mas os motivos, os actores, os mandantes, e as consequências, politicas e sociais, que isso terá tido no processo de independência de Cabo Verde e, quiçá o mais importante, até que ponto esse acto revolucionário terá condicionado a evolução da paisagem radiofónica em Cabo Verde.

Se se aponta como o principal motivo para o assalto à Rádio Barlavento a sua atitude colaboracionista com o regime colonial, isso tem que ser demonstrado com recurso a casos concretos, quer através da análise da oferta em termos dos conteúdos (a grelha de programas), como da estratégia e linha editorial da Rádio Barlavento.

Pergunta-se: a tomada da Rádio Barlavento era mesmo inevitável para o processo de formatação de consciências, visando granjear o apoio incondicional ao PAIGC e do processo de reconstrução nacional, ou esse trabalho ideológico poderia fazer-se utilizando uma outra rádio expressamente criada para o efeito, replicando, aliás, a experiência da Rádio Libertação?

Continuo a defender que ainda não se analisaram de forma aturada as consequências da tomada da Rádio Barlavento, trabalho imprescindível se quisermos entender o estádio de desenvolvimento da radiodifusão em Cabo Verde. Acredito que, caso a RB não tivesse sido nacionalizada, neste momento Cabo Verde teria uma oferta radiofónica muito mais rica e diversificada, fruto de uma concorrência que é hoje francamente incipiente, para não dizer inexistente.

S. Vicente teria a sua voz autónoma que lhe foi cerceada. Em vez de janelas na programação da Rádio Nacional – solução encontrada para o espelho das realidades regionais – S. Vicente teria uma rádio à altura da ambição, das expectativas das suas gentes, da sua idiossincrasia e multiculturalidade. Isso, se prejuízo de uma Rádio Nacional de serviço público que aposte na universalidade, na promoção da cultura e identidade nacionais e da coesão social.








Terça-feira, Agosto 04, 2009

Carlos Santos de volta à direcção da RCV


De acordo com o administrador da RTC, Álvaro Ludjero Andrade, a nova direcção da rádio vai ter a missão de relançar a estação...

Praia, 03 Julho - O jornalista Carlos Santos acaba de ser nomeado Director da Rádio de Cabo Verde (RCV), cargo que volta ocupar um ano depois de se ter demitido.
Esta informação foi avançada ao início da tarde de hoje pela estação de rádio estatal e, ao que parece, sem rupturas com Paulo Lima, o director cessante.

De acordo com o administrador da RTC, Álvaro Ludjero Andrade, a nova direcção da rádio vai ter a missão de relançar a estação e continuar a liderar as audiências em Cabo Verde.
“É uma equipa, na qual apostamos muito. Já definimos as orientações a ter nos próximos tempos. A rádio está numa fase do seu relançamento e vamos avançar com novos padrões, tornar a RCV uma rádio actual, que continue a liderar”, espera Ludjero Andrade.

Sobre a substituição da direcção liderada por Paulo Lima, por esta de Carlos Santos, o administrador põe de lado cenários de ruptura.

“Estávamos a trabalhar com a direcção que encontramos e que na altura não encontrámos motivos para mudar. Depois de 8 meses, décimos avançar com uma nova equipa, precisamente para marcar as directrizes, deixar a marca do Conselho de Administração que tem um mandato”, explica, reconhecendo o trabalho da direcção cessante que tinha ainda Júlio Vera-Cruz Martins como Chefe do Departamento de Informação e Odair Santos na Programação.

Odair Santos que, entretanto, vai continuar no cargo, ao lado de Nélio dos Santos, a dirigir a partir de amanhã, 4 de Agosto, a informação.