Por isso, o KRIOL RÁDIO, ciente da sua missão, orgulha-se de apresentar uma comunicação proferida pelo jornalista Carlos Lima, em Dezembro de 2005, no Mindelo, para assinalar os 31 anos da tomada da Rádio Barlavento. O repto é-lhe também dirigido: se conhece um pouco da história da radiodifusão cabo-verdiana, por ter trabalhado, colaborado, ou, simplesmente, se lembra de como era a rádio há alguns anos, partilhe a sua memória com os leitores deste blogue. A rádio é o património da memória colectiva.

Após o seu surgimento, a rádio conquistou, em apenas 40 anos, um lugar tão importante na vida intelectual e económica da maioria dos povos. A sua presença indiscreta insinuou-se de tal forma nos nossos hábitos que hoje o mundo sem rádio nos colocaria numa posição muito remota. Aliás, são incontestáveis os valores da rádio enquanto meio de comunicação de massas.
Trata-se de um órgão que muito mais que a televisão ou o cinema estende o seu poder e a sua magia por todas as partes do mundo e a todos os meios sociais. Posso mesmo concluir que a rádio conseguiu impor modificações profundas nos hábitos e na maneira de viver do homem moderno. Ou seja, acredita-se que a rádio pôs fim a uma espécie de isolamento no qual o homem vivia.
Muitos vivem hoje à espera das palavras e do som dos seus receptores. É esta magia que transforma a arte de fazer rádio numa forma de levar o saber, a cultura e a informação genérica a todas as casas numa das mais abertas democracias do mundo.
É na base destes conceitos de rádio que recordamos a data de 9 de Dezembro, marcada pela passagem do trigésimo primeiro aniversário da tomada a Rádio Barlavento aqui na ilha de S. Vicente, por um grupo de populares, maior parte, jovens revoltados pelos conteúdos da programação dessa estação emissora. Entre essas pessoas vamos aqui recordar o nosso amigo Carlos Évora e o saudoso Cuks que já não está entre nós, infelizmente.
Registada sob a sigla Rádio Barlavento, estação emissora de ondas curtas CR4AC, emitindo na faixa dos 75 metros, os sanvicentinos tomaram as instalações no antigo Grémio Recreativo Mindelo, na Praça Nova, e criaram uma estação do povo, para o povo e pelo povo, designada Rádio Voz de S. Vicente.
Hoje, se estamos aqui para marcar a passagem dessa data histórica é porque tivemos pessoas que se dedicaram à causa da rádio, algumas vivas, outras já falecidas, mas que também recordamos com muita saudade. Refiro-me aos Srs. Cândido Cunha, Pedro Afonso, Evandro de Matos, Teodoro Pias, Telmo Vieira, Aníbal Lopes da Silva, Francisco Tavares de Almeida, Zito Azevedo e muitos outros que poderíamos enumerar e aos quais rendemos sincera e respeitosa homenagem.
Outra estação emissora marcante na época que antecedia a Independência Nacional era a Rádio Clube Mindelo, também de ondas curtas, com a sigla CR4AB, que emitia na faixa dos 62 metros. A estação, situada na rua de Lisboa, foi uma verdadeira escola de locutores, os quais acabariam por trabalhar na Rádio Barlavento, na altura de maior expressão, devido a potência do seu emissor, 1Kw.
Voltando ao 9 de Dezembro, podemos dizer que inicialmente a funcionar com locutores e técnicos que viam na actividade radiofónica apenas um hobby, a Rádio Voz de S. Vicente permitiu uma virada na história da radiodifusão. Pode-se considerar que há 31 anos, a radiodifusão em Cabo Verde dava o seu primeiro passo no caminho do crescimento, da profissionalização e da modernização, com a contratação dos primeiros quadros a tempo inteiro e que, posteriormente, passariam à fase de formação no exterior.
Enquanto os quadros recebiam essa formação, outros carolas mantinha a estação no ar, elaborando noticiários, tanto a nível nacional como internacional através de um serviço de escuta das estações estrangeiras e também da prensa latina; produzindo programas, a maior parte sobre o processo da luta pela Independência, com as músicas de intervenção da época e poemas que clamavam pela liberdade.
Com a tomada da Rádio Barlavento, começava o processo de esclarecimento do povo quanto aos projectos da Independência, quanto ao pensamento e à obra de Amílcar Cabral, numa rádio revolucionária que acabou por ter o privilegio de noticiar a independência de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975.
Pode-se considerar que volvidos 31 anos, Cabo Verde tem hoje uma rádio renovada que passou por algumas fases de transformação. No início existiam a Rádio Voz de S. Vicente, no Mindelo, a Emissora Oficial, na Praia, e mais tarde, foi criada a retransmissora no Sal, que acabariam por fundir-se na Rádio Nacional de Cabo Verde, RNCV, que, por sua vez, foi extinta e criada a actual empresa RTC com a componentes rádio e televisão.
Hoje a Rádio de Cabo Verde chega a todos os cantos do país através de uma rede de emissores e retransmissores em modulação de frequência, com centros de produção na Praia, Mindelo, Espargos e Assomada, e foi materializado o sonho de estarmos no seio da nossa emigração através da Internet.
Os carolas de 1974, alguns ainda no activo, vêem agora no quadro de pessoal da rádio, técnicos licenciados em vários países, o que poderá ser considerado uma mais-valia no sentido da melhoria dos conteúdos da nossa emissão e programação.
Se hoje Cabo Verde tem uma rádio pública com expressão e com liderança de audiência é que foi dado o importante passo a 9 de Dezembro de 1974 no sentido da criação da Rádio Voz de S. Vicente. Uma data que, sem dúvida, faz parte da História do nosso país e que decerto continua a ser acarinhada pelo povo cabo-verdiano
Comunicação lida pelo jornalista Carlos Lima durante uma conferência realizada pela RTC na Biblioteca Municipal do Mindelo, a 10 de Dezembro de 2005.