quarta-feira, dezembro 23, 2009

OS DIAS DA RÁDIO I

Na senda da sua missão de colaborar, ainda que de forma modesta, para que se conheça a história da radiodifusão em Cabo Verde, o KRIOL RÁDIO, reproduz, com a devida vénia, uma comunicação proferida pelo Dr. Rolando Martins, um dos decanos do jornalismo radiofónico cabo-verdiano, antigo director da Rádio Voz de S. Vicente. Como sempre, contamos com a colaboração de todos aqueles que fizeram rádio no passado (ou que ainda se encontram ao microfone) ou que de alguma forma possam acrescentar elementos outros que nos possam ajudar a descodificar o percurso da rádio em Cabo Verde.

Em Maio de 1945, curiosamente no ano em que os alemães se renderam, instala-se a primeira emissora cabo-verdiana, primeiro com a designação de Rádio Praia e, depois, de Rádio Clube de cabo Verde, graças ao entusiasmo de privados, em que se destacam técnicos ligados às telecomunicações, como o director dos CTT, Rogado Quintino, Tomas Barros (o pioneiro da rádio em Cabo Verde) e Telmo Barros Vieira, que montou o segundo emissor da Rádio Praia.

O enorme interesse manifestado pela informação da rádio sobre o desenrolar da guerra (IIGM) em todo o arquipélago que, segundo testemunhos, levavam as pessoas a aglomerarem-se à volta dos poucos receptores existentes, terá contribuído para esta histórica iniciativa. Na época, a Praia é descrita, em 1951, por um visitante, em comparação com o Mindelo, como uma cidadezinha provinciana, mas mais pitoresca e graciosa, enquanto outros destacavam que as suas ruas eram, de uma maneira geral, limpas, arejadas e bem calçadas. É nessa pequena cidade que tem início a radiodifusão em Cabo Verde.

Em 1949, o Rádio Clube de Cabo Verde utilizava um emissor de ondas curtas de 500 Watts na frequência de 4000 quilociclos/ segundo, banda dos 75 metros, inicialmente durante hora e meia, das 18:30 às 20 horas, aumentando depois o tempo de emissão para duas horas. Cobria em condições deficientes uma parte do arquipélago. Recebe a colaboração de figuras da intelectualidade cabo-verdiana, como Jaime de Figueiredo, Arnaldo França, Guilherme Rosteau, o próprio Amílcar Cabral, e tantos outros. Com a independência passou a designar-se emissora oficial de Cabo Verde e, depois, Rádio Nacional de Cabo Verde.

Dois anos depois, mais precisamente a 27 de Maio de 1947, inaugura-se o Rádio Clube de Mindelo, com emissões inicialmente às terças, sábados e domingos, das 18 horas às 19:30, depois diárias, por iniciativa, sobretudo, de alguns pequenos comerciantes portugueses e elementos da pequena burguesia mindelense.

Com um emissor de ondas curtas de fraca potência, transmitia na frequência dos 4755 q/s na banda dos 62 metros, cobrindo quase exclusivamente a ilha de S. Vicente. Evandro de Matos, mais conhecido por Evandrita, é um nome incontornável na história desta emissora.

Merecem ainda uma referência as emissões da chamada Rádio Pedro Afonso, surgida por volta de 1950. De existência curta, cobria uma faixa pequena da cidade. O calco é feito por observação pessoal porque a Rádio Pedro Afonso funcionava na rua Machado no prédio defronte onde funciona hoje a Policia Judiciária.

Em 30 de Junho de 1955, após um mês de emissões experimentais, inaugura-se a Rádio Barlavento, propriedade do Grémio Recreativo Mindelo, então presidido pelo Dr. José Duarte Fonseca. No acto de inauguração, o Dr. Adriano Duarte Silva, deputado por Cabo Verde, destaca a iniciativa da Direcção, e o nome do Sr. Mendo Barbosa da Silva, é apontado como o grande obreiro da sua concretização.

Creio ser consenso entre as pessoas que conheceram por dentro e por fora a actividade da Rádio Barlavento que o Dr. Aníbal Lopes da Silva veio a ser o Director de referência da referida emissora… sem desdouro para outros dirigentes, pela forma digna e profícua como dirigiu a emissora, a apesar das fortes limitações impostas pela política sufocante do regime salazarista.

A Rádio Barlavento transmitia com um emissor de ondas curtas de 1000 Watts. Era o mais potente emissor de Cabo Verde e que, de facto, cobria o país. Um emissor adquirido por subscrição dos sócios do Grémio, emitia na banda dos 50,2 metros, depois dos 75 metros, mas foi aumentando o seu período de emissão até atingir as seis horas diárias. Mais tarde passou também a emitir em frequência modulada.

Com a sua ocupação a 9 de Dezembro de 1974, no auge da luta politica que então se travava, surgiu no seu lugar a Rádio Voz de S. Vicente, mais tarde integrada no sistema nacional de radiodifusão, como “Estúdios do Mindelo”, decisão que não teve a aprovação geral – já agora devo acrescentar que não teve a minha aprovação pessoal, porque pensava que se podia manter a Rádio Voz de S. Vicente, embora integrando a cadeia nacional.

Continua...

2 comentários:

  1. Rolando Martins nunca foi homem de radio; ele foi apenas um locutor, que lia o que outros escreviam na Radio Barlavento. Depois foi director da Radio Voz de SVICENTE, quer dizer comissario politico pois ajudou o PAIGC na tomada da Radio Barlavento.Enfim ainda porque era do PAIGC foi nomeado director geral da Informaçao. Conclusao: por ter sido locutor que lia o que outros escreviam ele é de repente visto como homem da radio e falar de coisa que nunca estudou? Com quem é que ele aprendeu? Pode-se ser jornalista e homem da radio sem ter aprendido na escola ou com alguem que saiba?
    McField

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  2. "Um exemplo recente é a comemoração do dia da comunicação social em Cabo Verde. Devia saltar à vista imediatamente que a tomada da Rádio Barlavento no dia 11 de Dezembro de 1974 não seria a melhor data para se celebrar a liberdade de expressão, a liberdade de informação e a garantia de expressão e de confronto de ideias das diversas correntes de opinião nos meios de comunicação social do Estado. Essa data marcou o fim das rádios e jornais privados e o início da institucionalização da comunicação social a uma só voz. O processo de centralização numa rádio nacional única, então desencadeado, nem poupou a rádio Voz de S. Vicente, nascida nesse dia. Não existe uma sensibilidade crítica quanto ao limite do que é permitido ao Estado e aos seus dirigentes fazer sem ferir o direito das pessoas à sua consciência, às suas convicções e às suas ideias."

    On Em CIMA Humberto

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