sábado, maio 19, 2012

Quem tem medo dos políticos? (I)

O deputado Abraão Vicente, entrevistado pelo Expresso das Ilhas, fez, precisamente na véspera do dia mundial da liberdade de imprensa, uma interessante reflexão sobre o relacionamento entre os jornalistas e os políticos. Não obstante flagrantes contradições, a que me referirei mais adiante, as declarações do jovem político provam que os jornalistas não estão imunes ao escrutínio por parte dos políticos nem dos cidadãos.

Fazem também eco de um rol de críticas recorrentes um pouco por todo mundo onde a imprensa labora num contexto de liberdade, entre as quais se destaca o facto de os jornalistas estarem isolados numa espécie de redoma, ou se se preferir, num pedestal, completamente alheados dos reais problemas dos cidadãos, falando cada vez mais uns com os outros e para os políticos.  

O relacionamento entre os jornalistas e os políticos não é propriamente um tema novo - talvez o seja entre nós -, e tem suscitado diversas abordagens teóricas a partir de múltiplos pontos de vista. Como muito bem escreveu António Vitorino, ex-comissário europeu e uma das figuras de proa do Partido Socialista português, no prefácio do livro da jornalista Judite de Sousa, A Vida é Um Minuto, “o posicionamento recíproco de políticos e jornalistas assenta não apenas numa relação de tensão latente mas também numa compreensão desvirtuada do peso relativo dos respectivos protagonismos”. 

Os jornalistas constroem o paradigma do “contrapoder”, ou do “quarto poder”, na sua vertente extrema, ou de “vigilante independente do poder”, e os políticos, por seu turno, alimentam a aspiração de condicionarem as mensagens comunicacionais em função daquilo que entendem melhor servir os seus objectivos, oscilando entre a vitimização e a construção de “bodes expiatórios” imputados à actuação dos meios de comunicação social.   

Na linha do pensamento do deputado Abraão Vicente está também um dos grandes teóricos do modelo de jornalismo cívico. Segundo Davis Merrit “o sentimento é o de que os jornalistas se tornaram arrogantes, mesquinhos e cínicos; que os jornalistas se tornaram estrelas; que os jornalistas e os políticos se tornaram ELES; que os jornalistas estão demasiado preocupados com “cachas”, prémios e dinheiro no banco; que os jornalistas alimentados com o“viagra Watergate” se tornaram hostis, criando uma cultura de “foste apanhado”, gerando um novo tipo de jornalismo, rotulado de “jornalismo de ataque”; que os jornalistas se tornaram os inimigos da esperança (Merrit, 1995).

Este relacionamento tenso entre jornalistas e políticos, um misto de amor e ódio, evidencia-se no chamado jornalismo político em que “o estilo interpretativo – explica Thomas Petterson, da Universidade de Havard, eleva a voz do jornalista acima da do simples fazedor de notícias. Como narrador, o jornalista está sempre no centro da história (…) a interpretação fornece o tema, e os factos aclaram-no. O tema é primário, os factos são ilustrativos”.

O defensores do chamado jornalismo cínico elencam uma série de argumentos para demonstrar “o preconceito anti-política dos media”. Primeiro, porque num mercado competitivo, os media, em especial a televisão, são dominados por considerações mercantis, mais do que por um sentido de serviço público; Segundo, os media em vez de controlarem o poder, tornaram-se eles próprios actores poderosos que determinam a agenda política, construindo e destruindo políticos. Só que, ao invés dos poderosos legitimados por eleições, estes não são sufragáveis nem julgados pelo que escrevem e dizem, a não ser em termos de mercado; Terceiro, cada vez mais a política e os políticos são retratados pelos media como pouco confiáveis: os chamados animais políticos são vistos como pessoas que apenas pensam em si mesmas e a política como um processo institucional burocrático, caro e, muitas vezes, falhado. E finalmente, os efeitos deste panorama negativo da política manifestam-se na criação de um público cada vez mais cínico que, por causa disto, perde a confiança na integridade dos políticos e nas suas capacidades de resolver os problemas. Este efeito foi descrito como uma crise de legitimidade na representatividade e decisão política, devido a um fosso cada vez maior entre os políticos e o público.

Cada vez mais, é notório que a política já não está fazer vibrar as multidões. Nas sociedades modernas há mesmo uma sensação de tédio em relação à política. O declínio do voto acentua-se. Os índices de abstenção nas consultas eleitorais aumentam em flecha. Como muito bem sublinha a jornalista Judite de Sousa “existe como que uma contradição entre, por um lado, a prosperidade económica, a vitalidade do tecido social, os níveis de instrução e de alfabetização e, por outro, o apagamento da cidadania, uma ausência de vontade de influenciar através do voto o funcionamento dos órgãos de poder, a tomada de decisões que determinam as nossas vidas e o nosso futuro”. Há, por isso, quem fale no “paradoxo da democracia”, pretendo com esta expressão, afirmar que à medida que a democracia está em expansão em todo o mundo, existe uma descrença nas instituições públicas.

O sentimento pejorativo, ou de um certo cepticismo, com que hoje muitos cidadão se referem à sociedade politica – antes tida como um ideal, até certo ponto uma utopia, não poderá ser assacada apenas à comunicação social e aos jornalistas. É evidente que o emo(emoção)-jornalismo e o cini-jornalismo terão, de algum modo, contribuído para alargar o fosso entre os eleitos e os eleitores. Contudo, como muito bem lembra Adriano Moreira, “o fenómeno central da politica  é a luta pela aquisição, manutenção e o exercício do poder”. Ou seja, deixou de se encarar a política como a forma de atingir o “ideal do homem” que devia viver a paredes-meias com o bem e a justiça, na Polis.

Muitos actores políticos vêem nesta “arte nobre” não um meio imprescindível para que se atinja a felicidade e o bem comum, mas antes uma oportunidade de enriquecimento pessoal, de status social, de distribuir benesses à sua clientela e de promoção da mediocridade. A crise financeira que assola o mundo, com maiores ondas de choque na Europa prova que os cidadãos tinham razão. Afinal, os políticos estão do lado dos interesses do grande capital. Em Cabo Verde já há alguns sinais preocupantes: apatia e desinteresse de uma boa parte da sociedade civil em exercer a sua cidadania e, o mais grave, os jovens estão aparentemente nas tintas em relação à politica. Ou será uma mensagem aos políticos?


Continua…

1 comentário:

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